Sunday, September 24, 2006

o iluminado

ainda não sou escritor. mas bonga, bonga, bonga! já descobri a matéria prima do ofício. quem pensou na vida, descrita ou recriada, lamento informar, mas com base nisso um escritor nunca vai cair da estante.

a matéria prima do escritor, aha! é a solidão. e quanto mais talento solitário tiver o escritor, mais solidário for ao avesso do vazio, mais extrairá da mesma o suprasumo da matéria, que é o silêncio. sim, o silêncio! psiu!, a ararinha blue ou o mico leão dourado de qualquer romance ou hai-kai que se queira levado a sério.

é lá, bem dentro do silêncio, que está o magma. gosma que aquece o cérebro e o faz jorrar a história que não se quer cinza. ou o iceberg trincado pela ponta da caneta, sim porque ainda há quem escreva à mão, que parido de morte, inunda a página em branco com palavras que se dispôem a contar uma história para não morrer de hipotermia.

sem o silêncio não se consegue escrever. e, com certeza, é preciso bem mais do que um hotel nas montanhas geladas para ser o jack nicholson em versão. sim, porque há quem consiga o silêncio no meio da mais infernal turba e quem não o consiga no mais celestial dos cumes ou no mais abissal das tumbas. o silêncio está no sombrio apenas enquanto disfarçe para muitos. para outros, é um verdadeiro carnaval.

os dizeres do silêncio vem em sustenidos, como silvos dos morcêgos. são inaudíveis para a maioria das pessoas mas não para os vampiros das palavras. aqueles que sugam jugulares de oxítonas e paroxítonas com a sede das proparoxítonas. não basta sentir o gosto de sangue. nem levá-los a imaginar tão-somente. é preciso fazer isso com a precisão do terror do silêncio de quem lê. se o leitor balbuciar qualquer hiato, pronto! você é um vampiro de dentaduras. e se ele fizer a leitura e no meio do parágrafo sentir vontade de comer o barulho de um sanduiche, desista agora mesmo. o seu siêncio é de camelô.

apesar de muita sede, mais muita mesmo, ultimamente não tenho conseguido exercitar a o silêncio na escrita. e logo agora. que justamente fiz esta descoberta da pólvora ou do polvilho, todo o barulho do mundo cismou de bater a minha porta. e de dar peteleco nas minhas orelhas. é a gata no cio, cães enciumados do vizinho, disco novo da banda calypso do pará, cano de escape furado da 125 do entregador de pizza, peidos do filho gordo do vizinho que já foi gordo. dos assovios de sua mãe que sempre foi convidativa, agora viúva e magra, e que agora mais do que nunca estimula as rimas do repentista de cordel apaixonado. e, claro, estamos em campanha eleitoral.
convenhamos que para quem procura tal espécie de silêncio, o arrulhar dos pombos já seria barulho que perfura os tímpanos. juntamente com o ronronar dos meus intestinos em nervos, bateria de escola de samba. sim, e eu nem computei os alto-falantes da igreja evangélica a mais nova ameaça dos céus. o silêncio é para eles não é ouro, é dizimo. para ser um escritor do barulho, repito, tem de haver silêncio.

há dois dias estou frente a uma página em branco que não consegue dormir com tanto barulho. já fiz de tudo para niná-la tentando conseguir para ela o mais puro silêncio pré-natal. impossível, digo-lhe solidário com o barulho das minhas olheiras que impede as pálpebras de se fecharem.

no limite do sussurro da minha força física para calar o incalável eu digo a mim mesmo de forma quase inaudível que não aguento uma noite a mais. tenho os braços e dedos mordidos de acessos de raiva. a pressão da escrita faz o encontro das águas com a pressão arterial. estou uma pilha muito barulhenta. sístole e diastole encaminham-me para a pororoca. não serei um boom! mas um poom! de vendas. mas aí eu já estarei morto e mortal, desatino mas prefiro, porque os escritores imortais são muito barulhentos com suas canecas de chá e biscoitos estaladiços. e isto é uma puta de uma sacanagem para quem procura o silêncio mortal, necessário como vimos, para a ressureição em trombetas das escritas. se bem que já não duvido de mais nada. muito menos que os mortos sejam brindados com o silêncio do escritor, coisa de que já duvido muito menos ainda quando me vejo no ofício observado em velório de alguns parentes próximos, que nem se quissesem ressucitar, o poderiam, diante do estrepitar das palavras ditas de corpo presente e ouvinte por força das circustâncias ou absoluta falta de opção. entre um comício e um velório eu prefiro o primeiro. com toda honestidade acredito que a desonestidade dos políticos é sempre mais sincera do que a dos parentes.


com idéias de castiçais na cabeça, muito pouco genealógicas, saio decidido e atravesso a rua de um lado a outro fazendo contas. são cinco horas da tarde e o armazem de ferragens só fecha as cinco meia. 500 metros, passos a velocidade de 5 km por hora, não sei se tão lépido e fagueiro, mas sei que chego com folga. uma ligeira farra do ofício é chutar os cáculos e depois corrigi-los com frase ainda mais desconexas. alguém aí já se certificou de andar a 5 quilòmetros por hora é garantia de cumprimento do trajeto. e se...

sem folga no cabo respondo ao vendedor. e por favor, dêem-mo-no acunhado que esta noite eu preciso cortar alguns males pela raiz. e não convém fazer barulho na vizinhança reeditando a cunha, cabo apoiado no meio-fio, batidas lancinantes de aprumo a lâmina, assustando os gatos e cachorros que rasgando sacos de lixo, sugerem-me não fazer corte serrilhado, inda que lâmina virgem, audível esquinas adiante. sou muito novo no ofício para ter nóias, que valham a pena divulgar. mas pelo sim pelo não, evito os olhares animalescos de testemunhas indiciantes com que os animais me lançam acusadores até o rabo que não mais balanço até me sentar.

se depender de mim, aquelas duas páginas em branco agora vão virar manchete suculenta depois de amanhã. depois de muito barulho a rua finalmente vai ficar silenciosa tempo suficiente para pelo menos escrever a morte da burra. depois, manhã nascendo, timbres taquicárdicos das sirenes das ambulâncias da polícia e do samu, eu pensarei noutras soluções para chegar ao silêncio necessário para a segunda página. afinal, começo a definir meu estilo como a de um escritor de ação.

por agora, trata-se da primeira. se eu não partir o cabo do machado em mais um destes meus golpes de literatura, nem será preciso reescrever tanto. por vias das dúvidas, vou começar pelo garoto de barriga mole e peidão. as pessoas ficam sempre muito sensibilizadas com isso. de garantia deixo-lhe perna com coto e sirvo um pé para distrair a atenção para minha imprecisão com as vírgulas. um pouco de bosta no sapato que sobrar também dá jeito de cult. ouso ou não ouso, o vai-e-vém do pensamento faz-me um barulho ensurdecedor, como linha de cerol serrilhando o cano mínimo de bota infantil, de cor preta traste, dando trelas ao nunca mais agora cotó.

nem bem limpo o machado na banha do bucho do garoto gordo de intestinos podres e agora sim! começo a sentir os eflúvios do silêncio, que me é tão necessário. ah! a paz do silêncio. pombas! isto vicia, livrando-me de alguns resquícios de sangue, como pingos nos is, very, very cool.

escrever assim não me fez suar como pensaram. mas deu um trabalho que trouxe consigo os primeiros calos nas mãos, que quase rompem-se pela falta de verniz. espero que com a prática, eu consiga fazer o serviço com mãos de escritor. quem sabe com o tempo o corte do machado seja alíseo no ventre das palavras paridas em suspeição.

2 comments:

Alex Camilo said...

Eita!!! tá inspirado hein velho? Eu também sofro e careço desse tal silêncio. É a falta dele que anda calando a minha "pena" (vish maria, lá vou eu usando metáforas parnasianas pra lá de fossilizadas). Mas creio que esse silêncio que preciso não é externo, entende? É uma certa serenidade, que os orientais buscam por meio da meditação, mas que sou muito indisciplinado e mundano para alcançar. Por isso é tão mais fácil produzir quando se está fudido, sozinho e mal pago. A gente fica totalmente concentrado na merda em que está e não há descarga suficientemente forte para te fazer parar de rodar dentro da privada. O problema desta maneira de alcançar o silêncio é que não dá pra escutar nada e consequentemente escrever nada, que não sejam ecos dos seu próprios peidos.

erico said...

apenas o cursor piscando eletricidade na tela e desatino. a página em branco ou cá dentro da gente, criamos para preencher o que está vazio. é isso aí, celso. abraço.