Saturday, November 25, 2006

sessenta menos sete

dois dedos de prosa e já se conheciam por uma eternidade.

sessenta anos depois, no leito de morte, ele pede seu suco preferido e vez de mangaba ela serve graviola.

ele quase infarta de tanta xingação. 60 anos com esta puta e ela ainda não sabe os meus gostos de sabores? me diga se não é de morrer? e morreu, à seco.

semana depois, cerimônia de réquiem teve não. ela muito magoada deixou passar em branco. filho da puta mal agradecido, 60 anos aguentando estorvo a me xingar pelo menor esquecimento. se não fosse sabor, era o canudinho. se não fosse o canudinho era o adoçante. se acertava o açucar, era a quantidade.

vai reclamar do teu suco agora no inferno do meu esquecimento, velho babão.

e quer saber? de mangaba ou graviola, que diferença faz? é tudo fruta de caroço seu bosta ardido.

e mergulhou a mágoa num suco de pitanga, que sabia, tinha certeza, ele destestava ainda mais.

do fundo do caixão ele arrotou azedo.

Thursday, November 09, 2006

mentirinhas de portão

fim de tarde, e do namorico de calçada. ela garota dos seus treze anos não chorava mais do que ele quando devolveu-lhe a pequena caixa com retrato e trancelim que fingia-se escapulário.

todos lhe disseram que amores de adolescência logo passam, você vai ver, solidários das frases feitas, e de afazeres outros que não podiam ser trocados por sua companhia já incõmoda.

40 anos depois, sua caixa toráxica guarda palavras de consolo as quais se agarra té hoje: “os amores da adolescencia logo passam”, repete ele, sempre que passa em frente daquela casa enquanto muda de calçada

Thursday, November 02, 2006

de resto aos alcóolatras

já ultrapassara a barreira dos oitenta. uma semana no ar bebado de varar as madrugadas procurando pares na solidão. do abismo ao paraiso a distância pode ser feita de parágrafos, virgulas ou qualquer ar desses pulmões que tosse.

muito pálido eu nem já possuo mais ossos de sustentação no ofício. quimeras revistas, punhos metálicos, unhas de cobre e dente de zinco, sobrancelhas de neon, nicotina, narcóticos. baudelaire, rimbaud, verlaine, villon, ajoelhados aos pés da taça de oiro da loura gelada. as tiras de memória são velhas camisas esgarçadas com pedaços de 79, pedaços de muito antes, e de toda uma semana de 1980. eu sou mesmo um cachorrinho amestrado: aprendo todos os truques. até mesmo os de sobreviver com decência.

a flor da paraíba há quanto anos virá alimentando aqueles colibris abalroados, aquelas aves de pouso arquejante, toda aquela legião de camaleões descascados ? todos aqueles corpos já respiraram o ar venoso do amor? tenho certeza nas dúvidas sobre os noctívagos. eu sou um daquelas gentes.

sentei-me numa mesa de quina. não fosse a lucidez da minha paranóia, diria que ali sentei porque dali se observa melhor a confluência das esquinas com seus pares enamorados. apressava-se o relógio, com seu fálico ponteiro dos segundos, ejaculante meneio desolado, a saldar uma dívida antiga, em prazo por demais rápido para um passado deplorável.

uma banca de jornais: meus afagos para elas. entre todas aquelas manchetes sei, não lerei entre minhas orelhas nenhum parente vivo. o restante do tempo eu permaneço caricato, passageiro. circunstancialmente eu me coloco, eu me apresento, eu me refugio entre bares e jornais, afastando a recalcitrante forquilha do tempo, como se nela eu já não tivesse meu bilhete dependurado.

agora é tarde. folheio as mãos com jornais do sul. sei exatamente o que virá em cada centímetro comprado. ontem, estive em salvador. hoje,aqui. são paulo, porto alegre, amanhã .minas nunca mais.talvez eu encontre algum pedaço de mim, como uma gema preciosa em algum fundo de quintal do goiás velho, primeira reportagem de avião. voar é com os homens. sonhar é com os pássaros.

as mágoas encharcam. as bebidas as secam. bebo-me à seco, equlibrando-me entre guardanapos, saleiros e palitos fatigados e nauseados. batatas torturadas(fritas), queijos assados(retorcidos),coxinhas violentadas(estupro. manejo com habilidade minha paranóia e a remington baby, sonho menor de todo escritor chinfrim. telex e IBM 80 dissolveram-se na minha ideologia de axila versus pruridos multinacionais. sonhos esfarelados regados ao azeite espanhol(contrastes)gratinados à felatio(secura de mostarda)e condoído pela frieza das madrugadas(duras)eu já possuo nas mãos a inútil certeza do amanhã.

não deixa de ser uma paranóia folclórica. exercer o ofício na mesa de bar. corre-me nas veias algum sangue que não seja de executivo da informação ? paranóias e piadas à parte, reneguei o reinado da mediocridade por puro estoicismo.

cravo os olhos no espaço infinito de boemia do bambu. virgínius continua alimentando cães e gatos, alternando-lhes sopa e miolos. cabe a mim alimentar com restos os ratos da espécie. ex-professo, agredidos e misturados, sem escolha por inúteis apostas o bolor dos meus lábios.

o bar e uma vermelhidão de músculos e nervos dependurados baloiçando a favor do destino. já não bato em retirada por entre a literatura. a máquina de escrever a produzir o único barulho que não se encaixa na noite. tics tacs e toques são uma peidorrada alfenim, na bosta de querer detectar nessa primeira semana do meu ano numa exemplar anticrônica a venérea repetição.

nada.nada mudou.nem as vigílias pomposas(escandinavas)nem as donzelas coradas(demoradas) nem as prostitutas arrombadas(falidas)nem os homossexuais esfomeados(hemorro-idosos)nem os cães raivosos(contemplativos)nem as rosas murchas(adulteradas)nem os desejos humanos renascentes. a vida não vale a viagem, mara. só, observo este vício(a vida) monotonia que tarda-me em dizer good-bye e que faz-me indeciso entre o amor-café-na-cama e a angústia, lasciva caravela, que move escritores e seus objetos.

move-se a máquina e o homem, dificilmente separáveis, com um único destino: a crônica. entretanto machucado, evito as formigas e as farpas dessa sobremesa, se me lembro, seguro pelo braço, do valor da conta de estar vivo e escrever.

talvez noutra passagem exista a possibilidade de me deter com algum acrílico nos cílios. hoje, só percebo que esta mesa é redonda, que todas as mesas são redondas, e que, nós também, escritores e objetos, esta noite estivemos caminhando em círculos.

publicado na página especial, do segundo caderno de o norte, em 09 de janeiro de 1980.(uma quarta-feira abafada apesar da proximidade da lagoa no centro da segunda cidade mais arborizada do mundo(sic)) e excepcionalmente publicado aqui.