Friday, December 15, 2006

à francesa

cor de coisa madura cheira a podridão antes mesmo de chegar lá.
deve ser por isso que a esperança é eternamente verde. pra gente não apodrecer comendo mais passar o resto da vida pastando por causa dela.
verde que te quero verde. quem vive de esperança morre de fome. não é assim que se diz? mas aí vem os vegetarianos e estragam tudo. cheios de restos de esperança mastigados entre os dentes. e como se não bastassem, mostrando a língua, feito uns marcianos de verde, para nós eternos discrentes que vivemos a mastigar a nós mesmos, esperança perdida?
a cor da esperança esconde o bife que somos apesar de e por ela.
podiamos ao mesmo sermos servidos como hamburgueres acompanhados de batata frita e ketchup para não desperdiçar os dedos.
pronto, olha só aí a gente cheio de esperança de novo.
mas o que chateia mesmo é que a esperança nunca vem acompanhada de guardanapos.
mas à mesa continua cheia de palitos.
si vous plait, monsieur.

Saturday, December 02, 2006

chicle de caixinha

amor de uma vida inteira, não tinha dúvida. não se tratava apenas de uma paixão adolescente, daquelas intepestivas a ponto de ser rabiscada no caderno oito matérias inteiro mas que como todo amor adolescente corria o risco de perder-se no chiclete cuspido na próxima esquina.

ela era linda. cabelos ondulados levemente ao chegar a cintura. um andar leve, 13 anos e a delicadeza de quem pode fraturar-lhe a vida para sempre, sorrindo inocentemente sem a malícia prestes a despertar como em seu segundo ano de menstruação.

mas havia um problema, em todo aquele amor surgido numa visão, dela, ele menino jogando bola na rua de terra e lama, num bairro popular de uma cidade ainda em tempos de ônibus elétricos. tinha os dentes podres, quatro, já cacos, doravante seu terror ao dentista.

entre a excitação dos encontros nas calçadas das tardes, os primeiros amassos quase incidentais e aleatórios ao fluxo dos transeuntes, o medo de soprar-lhe podridão na boca, aquela que todos teremos um dia mas devidamente resguardada num caixão.

era amor mudo, a meia distância, amedontrado, assim que passava o efeito cigarro, chiclete, hortelâ garoto, e sabe-se lá o que inventado para disfarçar o hálito amaldiçoado, ele retomava distância que o vento contrabandeava para amada.

tão puro de sentimentos, tanto amor, o peito limpo, os sonhos lençois de cetim perfumados, as mãos prontas a dar-lhe o inacessível mas a boca podre cujo hálito jamais ousara perguntar a ela o cheiro. como poderia, como se faz isso, quando se tem 13 anos e se namora a menina mais bonita e rica do bairro?

esquece isso, amigos do futebol, consolam. quando se ama isso não tem importância. como não tem importância? sabia bem o que tinha na boca, assim como sabia o que tinha na alma. um sofrimento de igual para igual com o amor que descobria cada vez mais amordaçado pelo estado da sua bôca.

gostaria tanto de falar de pertinho, de dizer-lhe coisas com cheiro de franboesa, de demonstrar-lhe amor com hálito de um dulcora inteiro mas sem disfarce. sem ter de virar-lhe o rosto na hora em que ela puxava-o pela nunca e ele afastava-se defensivamente, o que acabaria premonitoriamente afastando-a para sempre.

tomara uma decisão. pelo amor tudo, já vira nos filmes de romeu e julieta, love story. há que se fazer sacrifícios, há que se ultapassar limites, há que se lutar para se conseguir alcançar a paz. e ele iria fazer isso. se por ela enfrentara tudo, inclusive aquele monstro de dois metros de altura, seu cunhado, disposto a trucidá-lo em nome da moral da irmã mal saída da menarca, porque não enfrentar o doutor paulo, o dentista boa praça do bairro? amanha, oito e meia da manhã em ponto estaria lá. iria limpar a boca, sua obra secreta de amor, imaginava o dia em que falaria de frente, sem aquele gosto ardido de um spray que durava meia fala e só atormentava no bolso a espera do momento que nunca viria para repetir mais doses escondidas, pior ainda a vergonha se descoberto com a boca na botija.

oito e meia da manhã, abriu o portão e sentou-se a espera naquela casa consultório, quarto da frente tortura, terraço espera, sala passagem quando não servia refeições.

sorriso de boas-vindas do doutor paulo, de quebra e testemunha um desafeto do futebol de rua também a espera. entrou primeiro, dele tomou a vez. desabou na cadeira, guardanapo na mão, e o pedido abra a bôca.

pensou nela como nunca, a medida que a anestesia ia sendo preparada. tudo finalmente iria ficar azul, a boca limpa como quando se sai do dentista, como se os dentes tivessem nascido de novo. ela sentiria o gosto do seu amor em cada papila da lingua que também era contida nos beijos que ele mesmo sentia gosto de travo. por toda uma vida lhe diria seu amor de pertinho, mais de pertinho do que qualquer amor do mundo pois o dele era maior.

no meio dos pensamentos a seringa perigosamente perto da sua boca, lembra da agulha da seringa avolumando-se, o coração disparando e tudo escurecendo. de nada mais se lembrou, nem dela.

pelo menos poderia ter arrancado unzinho que fosse, ainda que nem fosse notado pelo hálito viciado no odor dos outros três. mas nada. doutor paulo levou o menino para casa, não sem antes, anunciar ao desafeto do futebol — desmaiou! deste tamanho com medo de dentista.

avisou-lhe de que nada mais poderia fazer. era perigoso qualquer procedimento com ele naquele estado. teria de procurar um dentisa que lhe aplicasse anestesia geral, hipnose, ou tratamento para curar aquele medo fóbico. mas como um menino pobre que namorava a menina mais bonita e rica do bairro poderia fazer isto ainda mais sem nenhum apoio dos pais?

o amor, até mesmo o maior do mundo, as vezes não resiste a uma simples agulha de injeção, ainda que seja de anestesia. aprendeu isto quando foi ele mesmo o chiclete cuspido na esquina.

Friday, December 01, 2006

welcome

finais de tarde costumam ser bucólicos. misturam-se climas de transição.
sóis de girassóis sobre as nossas cabeças fósforos. postes anseiam a pele da noite. plásticamente mar, reflete mistérios estelares. confundem-se os peixes e os homens. na parte lateral das nossas cabeças a lua se insinua. é um umbigo enfeitiçado de henna. mini-galaxia origem da vida dos nossos pensamentos às curvas da lua nos feitiça. o sol extenua-se. politicamente correto jã não acende o cigarro. mas arreia in sofa branco de praia. coisa masculina. precisa de tempo para recuperar energias. diz que vai tomar um duche. e dá um mergulho distraido no mar boiando até o amanhecer. quando acorda tem os olhos nipônicos. outras gueixas, outras queixas. da amante africana.

há quem veja o bico do seio da noite. mas tem gente que não vê. entalado no rush da epitácio pessoa. estico a mão. da ponta dos pés do seixas. em tal entardecer pleno as plantas respiram o ritual da transformação. o calor do dia deixou-lhes túmidas para receber o orvalho. o oxigênio já transpira gás carbônico. a fotosíntese excita os morcegos. meu olhar no horizonte vai sumindo atrás de mim mesmo. dezenas de anos atrás a hora do angelus madrasta que me impingia cicatrizes nos castigos do entra para tomar banho. deusas da noite tomam formas. já já, trombadinhas viram monstros. animais abandonados continuam abandonados. e aos sentimentos abandonado. que tipo animal me adotaria ?

saudades do meu ofício. pirilampos sobrevoam algumas imperfeições. juro que amanhã vou voltar a fazer ginástica. não. o dia não vai terminar ele mal começou. direi isto a noite pela manhã, que a noite não terminou. não a vida não terminou. direi isto a morte quando ela chegar ? disse isso a vida quanda ela chegou. a morte não terminou. e isto é só o começo.
welcome.

Saturday, November 25, 2006

sessenta menos sete

dois dedos de prosa e já se conheciam por uma eternidade.

sessenta anos depois, no leito de morte, ele pede seu suco preferido e vez de mangaba ela serve graviola.

ele quase infarta de tanta xingação. 60 anos com esta puta e ela ainda não sabe os meus gostos de sabores? me diga se não é de morrer? e morreu, à seco.

semana depois, cerimônia de réquiem teve não. ela muito magoada deixou passar em branco. filho da puta mal agradecido, 60 anos aguentando estorvo a me xingar pelo menor esquecimento. se não fosse sabor, era o canudinho. se não fosse o canudinho era o adoçante. se acertava o açucar, era a quantidade.

vai reclamar do teu suco agora no inferno do meu esquecimento, velho babão.

e quer saber? de mangaba ou graviola, que diferença faz? é tudo fruta de caroço seu bosta ardido.

e mergulhou a mágoa num suco de pitanga, que sabia, tinha certeza, ele destestava ainda mais.

do fundo do caixão ele arrotou azedo.

Thursday, November 09, 2006

mentirinhas de portão

fim de tarde, e do namorico de calçada. ela garota dos seus treze anos não chorava mais do que ele quando devolveu-lhe a pequena caixa com retrato e trancelim que fingia-se escapulário.

todos lhe disseram que amores de adolescência logo passam, você vai ver, solidários das frases feitas, e de afazeres outros que não podiam ser trocados por sua companhia já incõmoda.

40 anos depois, sua caixa toráxica guarda palavras de consolo as quais se agarra té hoje: “os amores da adolescencia logo passam”, repete ele, sempre que passa em frente daquela casa enquanto muda de calçada

Thursday, November 02, 2006

de resto aos alcóolatras

já ultrapassara a barreira dos oitenta. uma semana no ar bebado de varar as madrugadas procurando pares na solidão. do abismo ao paraiso a distância pode ser feita de parágrafos, virgulas ou qualquer ar desses pulmões que tosse.

muito pálido eu nem já possuo mais ossos de sustentação no ofício. quimeras revistas, punhos metálicos, unhas de cobre e dente de zinco, sobrancelhas de neon, nicotina, narcóticos. baudelaire, rimbaud, verlaine, villon, ajoelhados aos pés da taça de oiro da loura gelada. as tiras de memória são velhas camisas esgarçadas com pedaços de 79, pedaços de muito antes, e de toda uma semana de 1980. eu sou mesmo um cachorrinho amestrado: aprendo todos os truques. até mesmo os de sobreviver com decência.

a flor da paraíba há quanto anos virá alimentando aqueles colibris abalroados, aquelas aves de pouso arquejante, toda aquela legião de camaleões descascados ? todos aqueles corpos já respiraram o ar venoso do amor? tenho certeza nas dúvidas sobre os noctívagos. eu sou um daquelas gentes.

sentei-me numa mesa de quina. não fosse a lucidez da minha paranóia, diria que ali sentei porque dali se observa melhor a confluência das esquinas com seus pares enamorados. apressava-se o relógio, com seu fálico ponteiro dos segundos, ejaculante meneio desolado, a saldar uma dívida antiga, em prazo por demais rápido para um passado deplorável.

uma banca de jornais: meus afagos para elas. entre todas aquelas manchetes sei, não lerei entre minhas orelhas nenhum parente vivo. o restante do tempo eu permaneço caricato, passageiro. circunstancialmente eu me coloco, eu me apresento, eu me refugio entre bares e jornais, afastando a recalcitrante forquilha do tempo, como se nela eu já não tivesse meu bilhete dependurado.

agora é tarde. folheio as mãos com jornais do sul. sei exatamente o que virá em cada centímetro comprado. ontem, estive em salvador. hoje,aqui. são paulo, porto alegre, amanhã .minas nunca mais.talvez eu encontre algum pedaço de mim, como uma gema preciosa em algum fundo de quintal do goiás velho, primeira reportagem de avião. voar é com os homens. sonhar é com os pássaros.

as mágoas encharcam. as bebidas as secam. bebo-me à seco, equlibrando-me entre guardanapos, saleiros e palitos fatigados e nauseados. batatas torturadas(fritas), queijos assados(retorcidos),coxinhas violentadas(estupro. manejo com habilidade minha paranóia e a remington baby, sonho menor de todo escritor chinfrim. telex e IBM 80 dissolveram-se na minha ideologia de axila versus pruridos multinacionais. sonhos esfarelados regados ao azeite espanhol(contrastes)gratinados à felatio(secura de mostarda)e condoído pela frieza das madrugadas(duras)eu já possuo nas mãos a inútil certeza do amanhã.

não deixa de ser uma paranóia folclórica. exercer o ofício na mesa de bar. corre-me nas veias algum sangue que não seja de executivo da informação ? paranóias e piadas à parte, reneguei o reinado da mediocridade por puro estoicismo.

cravo os olhos no espaço infinito de boemia do bambu. virgínius continua alimentando cães e gatos, alternando-lhes sopa e miolos. cabe a mim alimentar com restos os ratos da espécie. ex-professo, agredidos e misturados, sem escolha por inúteis apostas o bolor dos meus lábios.

o bar e uma vermelhidão de músculos e nervos dependurados baloiçando a favor do destino. já não bato em retirada por entre a literatura. a máquina de escrever a produzir o único barulho que não se encaixa na noite. tics tacs e toques são uma peidorrada alfenim, na bosta de querer detectar nessa primeira semana do meu ano numa exemplar anticrônica a venérea repetição.

nada.nada mudou.nem as vigílias pomposas(escandinavas)nem as donzelas coradas(demoradas) nem as prostitutas arrombadas(falidas)nem os homossexuais esfomeados(hemorro-idosos)nem os cães raivosos(contemplativos)nem as rosas murchas(adulteradas)nem os desejos humanos renascentes. a vida não vale a viagem, mara. só, observo este vício(a vida) monotonia que tarda-me em dizer good-bye e que faz-me indeciso entre o amor-café-na-cama e a angústia, lasciva caravela, que move escritores e seus objetos.

move-se a máquina e o homem, dificilmente separáveis, com um único destino: a crônica. entretanto machucado, evito as formigas e as farpas dessa sobremesa, se me lembro, seguro pelo braço, do valor da conta de estar vivo e escrever.

talvez noutra passagem exista a possibilidade de me deter com algum acrílico nos cílios. hoje, só percebo que esta mesa é redonda, que todas as mesas são redondas, e que, nós também, escritores e objetos, esta noite estivemos caminhando em círculos.

publicado na página especial, do segundo caderno de o norte, em 09 de janeiro de 1980.(uma quarta-feira abafada apesar da proximidade da lagoa no centro da segunda cidade mais arborizada do mundo(sic)) e excepcionalmente publicado aqui.

Saturday, October 28, 2006

zé das catacumbas

confidenciou-me, havia matado o pai. mas nem bem morto assim. vez em quando, ele surgia. e aí derrota de tudo. subiam-lhe além dos suores, a pressão, e com ela, o nervosismo, que ele sabia bem de quem herdado. esculhambava tudo, agia como se não fosse mais um. pior, como se não fosse ele mesmo. reconhecia-se irreconhecível. tudo era pressão do morto, que disse ele havia matado.

dentro de todas as coisas que detestava desta morte não conseguida, a ansiedade era o mal maior que herdara dessa morte mal matada. levara quase uma vida toda para descobrir isso. sim, era emocionalmente tenso, o que dificultava-lhe o equilibrio, nesta corda bamba de um duelo trabado entre o consciente e o insconsciente, pior, que não era dele. em conflito, a maioria de suas decisões eram afetadas por isso. pela ansiedade, que tanto-lhe lhe movia às pressas benéficas, mas que também provocava a perda de foco, dir-se-ia tecnicamente. ia viajar? noite mal dormida já de ante-véspera. e sonhos de chegada sempre cortados pela angústia da conferência dos mínimos detalhes. ônibus as quatro? as duas já na rodoviária. aquilo não era dele, era do morto, com suas insistências de manter os horários de vida dos outros pela hora da morte.

de suores frios assim tomado, via-se em discussões com seus oponentes reais tornados imaginários porque multiplicados em clones, cada um face adversa das muitas do morto mal matado. no que concluira que os mortos-vivos tem mais faces do que os vivos-mortos, estes que agora gostariam de lhe comer vivo enfrentados daquela maneira como se fossem sobrenaturais. afinal, quem gosta de ser tratado como morto?

pior ainda quando tentava prever tudo? no que sempre falharia, claro. de que adiantava imaginar que não fosse pego de surpresa, anteciparia-se as previsões de fracasso do morto, o que, em suma, tratava-se de evitar não tomar esporro do morto como tantas vezes acontecera em vida? nunca levaria vantagem sobre o morto e os vivos, que não raro transbordavam à realidade de maus súbitos, passando-lhe a perna, ressucitando mais uma vez o morto mal matado em máscaras do escárnio da opressão. então, gerava-se daí a fúria desabrida que no fundo, sabia agora, não era sua. um desejo desproporcional de negar compulsivamente o mando da autoridade, de um abaixo a ditadura do papel higiênico que fosse. aquela sua inconoclastia infantil do hay gobierno soy contra, acaletava isto sim afundanços nos negócios onde também ia perdendo sua vida pela morte mal matada do outro.

passaria de um fantasma? se cada passo do vivo, governado pelo morto. que inferno viver assim. carregava o peso do castigo e da ameaça. insuportável, não seria melhor morrer ele mesmo? duvidara a pensar algumas vezes. ciente de que estava perdendo a batalha? seria esta a questão crucial. o dia toda convivendo com isto, rebelando-se contra ele mais no fundo impulsionado por ele, sempre ele, o morto mal matado, do qual ele também um reencarnado?

por entre as catacacumbas dos vivos zé esgueirava-se neste dilema dos mortos tornado vivo por ele mesmo cada vez que pegava-se matando o pai mais uma vez mal matado.

matando-se mataria definitivamente o pai? ou quiçá seria muito mais vivo, deixá-lo viver, conquanto que fosse bem longe dali, em terras distantes não mais demarcadas pela lembrança da necessidade do esquecimento a rebelião?

zé das catacumbas perambula dia apos dia em cada um dos muitos de nós que imagina-se muito vivo por ter matado pra além de morte morrida o morto do pai que continua imortal por isso mesmo.

onde a falta de sutileza dessa morte mal matada? no rejunto das catacumbas por onde entram e saem as baratas da memória ?

Thursday, October 19, 2006

o papel do pirulito na vida da mulher da vida

enfiou os dois dedos na buceta.
depois chupou os dedos como se fosse a coisa mais gostosa do mundo. era uma espécie de ritual, na verdade um esquente, que é para o cliente não entrar em boca fria.

lembrou-se de todos os pirulitos de feira chupados na infância. assim embalada desembainhou o pau do freguês e meteu-o todo na boca.

não fosse profissional que era, té dormia e sonhava de volta aos tempos de menina. lembranças pueris daqueles pirulitos mais pegados na tábua. coisas de que as crianças de agora nem desconfiam o que era prazer. aquela coisa enfiada na tábua no teor dos seus 23 centímetros. a base grossa toda de fora. a parte fina transpassando a tábua pelo buraco pertado que nunca afolozota. porque sempre fica aquela coisa peguenta grudada. e assim, metade dentro, metade fora, passar dos tempos até se incorpora a madeira. sobras do pirulito como um cerote. que até contribui para dar mais água na boca. e quando era o último então? inté parecia que vivo era. quese pingando na ponta feito pica mijona de mica.

contudo, pirulito só tinha serventia no tempo certo. novo demais era como coisa de cera quente. mais quentchura que sabor. era engraçado esta coisa de pirulito, diferente da vida. novo, era mole demais. velho, era duro de quebrar dente. na média era bom de chupar, até de mordiscar, nem tão duro que não ficasse mole, nem tão mole que não fosse duro na hora que tinha de ser.

detalhe: duro e cor de rosa, inda mais que o papel que o papel que o enrolava – ela só escolhia os de papel cor de vermelho, verde e amarelo nem pensar, cor de pau de bandeira mole, eca! – era coisa de língua o que já não podia se fazer, por exemplo, com algodão doce, que emprastava a cara toda de açucar, que só tendo língua que batia na testa, conseguia limpar. não era o caso.

pirulito não, bom de se chupar, durava mais que toda e qualquer guloseima. e qualquer coisa até arriscava envolver no lenço e guardar para o dia seguinte.

pensando nisso a vida toda, vida açucarada de rosiléia, boca de tábua de pirulito. aguentava aquela vida como se fosse uma provadora de qualidade das fábricas de pirulito do mundo. quase cincoenta anos na zona, chupando como ninguém. dá-va gosto ver. quer dizer, há 40 anos atrás. agora só de luz apagada. ninguém nem via sua cara, apenas sentia a serventia. a língua, a cavidade bucal, vez em quando pelos do nariz, nem se apercebendo do buço, molares, pré e caninos, noves fora, a verruga passando batida, as rugas servindo de suporte de bagos, e tudo o mais da vida afora incorporado ao ato de profissão encarnada, até os cabelos ressecados de algodão doce se fosse. como pirulito na tábua do destino até o dia em que a morte viesse lhe chupar.


(mas cuidado na escolha do papel, tem de ser encarnado, tom de tosa, pra combinar com a menina que passou a vida a chupar pirulitos, não se esqueça, verde e amarelo, cor de bandeira mole, eca! e a morte que não a enrole, nem tão nova demais que seja mole, nem tão velha que fique dura e fria, porque agora estamos falando de chupar pirulitos mas sim de ser chupado por toda uma eternidade).

Monday, October 16, 2006

vamos tratar da saúde

22 tiros na cara. mais buraco só peneira. furdanço de bife e fígado esmurrado. pra quê tudo isso? nem pensou. serviço podia ser feito com duas, três, no máximo, que estava aprovadíssimo no exame de vista, constatou semana passada. mas como fazer cano fumegar e dar aquela passa com gosto de cano de depois?
risco de travar e derreter o tambor que se foda.por isso até usou tresoitão cano longo, assim nem tão adequado pra apresuntado à queima roupa, mas long size de fumaça.
ministério de saúde adverte. fumar faz mal a saúde. mas como largar do vício? isso eles não ensinam. e assim cada um deixa de fumar a sua maneira. só tinha mesmo um defeito. gostava de fumar cigarro de filtro, e o silenciador era preto, nadica de doirado. solução tragar alguém com cara de celofane?

Wednesday, October 11, 2006

le petit prince

não tinha mais que 12 anos. pequenos furtos. drogas pedem passagem. dezenas de brigas e centenas de porradas. lembranças tenebrosas de varias estadias na febem, a não ser uma: figura de livro que não sabia ler. menino louro montado em cima do mundo. isto ele queria ser. quem não quer ser? dono do mundo, quando se está cada vez mais por baixo?

não podia ver um cacetete que se transfigurava num monstro. de resto era manso, gatunozinho safado. boca de meia tigela. batia-se o pé e saia em disparada. mas desta vez não deu. beco sem saída, nem precisaram atirar.

e assim foi. pediram para manerar, apontar armas prum menino pra que? então tome coturno nos cornos, cacete no fígado, chave de braço, gravata pretexto para projeção de queixo bem na quina da calçada. zonzo de véspera mal sentiu o baque. quase-morto, serviço feito, meganhas cutucam o quase pacote pra ver se o bicho já era. não se mexe e o positivo é sinal de quase pronto pra ser enrolado como presunto. policial ainda chacoteia com o magreza do moleque, passando-lhe ponta de cacetete na bunda, gargalhada aprofundando a dedada.

ressucitaram o animal. ainda de costas, faca de sapateiro no meio do pescoço sem farda. os outros mal, tiveram tempo de ser virar. bala com bala, levou 15, chutou seis de primeira. os dele sem sobrevientes. os deles, levou no braço, na perna, na barriga e na coxa, puro azar, aquela artéria não devia estar ali.

ainda aguentou até de manhãzinha quando os primeiros raios de sol deram-lhe a ilusão de ver o principezinho surgindo por cima do sol. desmaiou, morreu, ressucitou. teve um fim que sugeria um novo começo. mas de morto morrido última página virada.


em seus sonhos de cadáver uma frase ainda incompreendida: você é responsável por tudo aquilo que cativa.

Tuesday, October 10, 2006

hora do angelus

dois dedos de martini e uma lista de crimes na cabeça. que mais precisa um homem para ser feliz ?

uma noite a vestir-se de perfeita, não fosse a cereja de má qualidade, pensou de soslaio. beber a calda não combinaria com o sangue dos seus planos. alfinetou-a. como se o palito fosse um estilete de costume, uns dois dedos abaixo do umbigo. mas não reclamou deste primeiro deslize em tanto tempo de convivência. há que se ter compaixão, pensou condoidamente. cerejas de boa qualidade não são servidas em um bar cujo forte era a vista. e que mesmo assim, tinha mantido razoabilidade em muitas. laivo de generosidade que lhe apascentava os demônios que provocavam a sua santidade com tantos questionamentos sobre seus atos inócuos, e que eles sim, demônios a cumprir papel santo, como anjos rebeldes.

o pensamento lhe tomou a cabeça involuntariamente, só em pensar no sangue que iria derramar madrugando o ato. mas por por favor não. não pensem em sangueira, salmoura, cabidela. nisso mais do que um esteta, ele era um religioso. e pra ele derramar era só uma figura de linguagem, homem de metáforas e analogias, já que meleiro não era com ele. com ele era a sofisticação em forma de lâmina. a perfuração estreita. o corte sem deixar refluir o sangue, embainhado no momento da ruptura semi-cilindrica. o que lhe exigia uma preparação assaz extenuante, como se tenista fosse. fortalecer os pulsos era necessário, e que pulsos homem, que os tinha. com igual fervor também primava pelo disfarce, que lhe permitia o gozo do martini não permitido aos da sua irmandade, tido e visto ainda assim como pecado venial.

lá de cima, no bar ao pé da sé de olinda, o porto do recife podia ser visto em panorâmica. mantidas a distância e proporção que permitia a visão, mas nunca a promiscuidade de tomar-se com parte da paisagem, onde havia nascido mas jamais reconhecido como um de seus filhos babados de pernambucaneidade. apesar de por tantos, já ter feito para isto.

costumava chegar ao entardecer. duas ou três mesas ocupadas. a sua preferida como por desejo realizado sempre vazia a sua espera. o movimento sutil da mão, branindo com suavidade a firmeza do pedido de imediato reconhecido, já era do conhecimento dos garçons que traziam aquela música no ar sorvida como um cântico: duas pedras de gelo. igual tilintado. bianco duce. e em vez de limão, cerejas. duas. de preferência não simétricas. taça nunca mais de dois terços, que era homem regrado.

brinde mais do que sagrado, sob a luz perfeita do entardecer, manto púrpura bordado pelo ouro dos últimos raios de sol fronteiriços a noite que tomava o cair da tarde num quase negro a engolfar réstias de nuvens azuis que plasmavam o branco a esvanecer-se. quase caravaggio. perfeito!, mentalizava-se. contrastando com a plena brancura da nave, paramentado para o crime, ao som de orações de mesmices.

exatamente as 15 para as seis, em tais dias, levantava-se após o segundo martini, ainda a meio. já paga a importância acrescida da gorjeta a mais cinco por cento, o que também lhe acrecia a alcunha, discreta, de homem dos 15. pelos garçons afirmado, nunca como galhofa e sim como separação dos fregueses comuns, tediosos, e daquele que se despedia sempre com um gesto santo, não sabiam o porquê depositava-lhes um sorriso que lhes trazia paz, fiéis escudeiros, bandejas coladas ao peito, homenagem que se fazia espontânea e inconscientemente, como se lhes obrigasse imã no peito.

em plena missa das seis lá estava ele, à carater, batina levemente surrada, convertido, gesticulando o latim de costume, consagrando o sangue do corpo de deus, com a repugnância que aquele vinho de quinta lhe causava. ainda mais depois do martini. mas, ato de fé, ato de fé. mantinha a postura até o fim e rezava e rezava para os fins, antecipando o sacrificio dos cordeiros de deus a serem imolados bem mais tarde, nas madrugadas de pedras úmidas de olinda. mais de mijo do que do orvalho, o que confirmado o ato mijador, resultava em último do pecador mijão.

graças a ele, ainda que lentamente, a razão de nunca mais que três mijões por semestre, o perfume das ramas derramadas sobre os muros dos casarios, outrora ainda mais ornamentados, iniciaria um movimento ainda que pendular a sobressair-se sobre a catinga entranhada nos rejuntos de pedras seculares e portas não menos antiquas, que se assim não fosse seriam destruidas pela vanila da quimica ultrajante das urinadas, ainda que displicentemente. despejadas sempre com mais vigor naquilo que o casario tinha de mais valioso, ainda que por abandonada assim não parecesse.

de quebra, as madrugadas de olinda por longo tempo permanceriam mais seguras para os garçons, os amantes e transeuntes da madrugada que, apesar dos medos, dos ditos e boatos, poderiam ir e vir em paz. desde que não mijassem fora do caco. e sobretudo acima do meio-fio. o que nem desconfiaria a polícia, também em risco se acaso apertada chegasse a isso, de que na catinga do mijo acima do sangue residia a química do ministério.

e assim foi. golpes e golpes de misericórida a fio. cidade mal cheirosa aprendendo a respirar outros perfumes novamente.

faina terminada, resmungava olhando para o crucifixo que lhe cobrava, mais por hábito do que por penitência, reza de boa noite. ao que se permitia leve blasfemada dada de ombros, suposto de antemão ter sido perdoado por mais que boa ação, ação de limpeza. o que lhe garantia um sono absolutamente tranquilo com sua fé e sua consciência em nada extenuadas, mas que por via das dúvidas deixava sempre o arremate no ar: — não gostou? então que vá se queixar ao bispo.

Saturday, October 07, 2006

bodas d´ouro

varanda de casa simples. como simples são as coisas postas felizes. de já quase idosos um fogo daqueles que não alardeia chamas em alta mas que queima lenta e aconchegantemente dos troncos os gravetos na lareira dos corpos que ainda lhe são ardentes.

mãos dadas, veias sobre veias, ela ainda mais carinhosa, faz-lhe pergunta que julga impossível resposta outra que não seja tamanha felicidade.

— diz-me meu amor, haveria alguma coisa que te pudesse fazer em mim, de tí o teu amor escravo mais livre e feliz ?
e ele, num sexo-sentido exposto em travo de mágoa — comer-te a bunda! todos os dias sem fazeres estes aís que me machucas, aís que assim mais não quero, como se uma vez na vida fossem todas as vidas numa vez.

toma-lhe a cara vermelha de um ardor nunca sentido antes. a bofetada fora tão inesperada quanto a resposta não aguardada.

e assim não sendo, continuaram a viver infelizes até que a morte os separasse.

Friday, October 06, 2006

anybody there?

toc! toc! toc! ô de casa!!!

na porta de pau ôco, morada de há muito abandonada, colônia de cupins lhe partiram o coração, as batidas foram morrendo sem resposta.

prenúncio do que havia lá dentro de vazio? não se sabe. nem alex sabe. quem sabe o que se passa lá dentro do que quer que seja? nem o dentro do dentro sabe. quanto mais o de fora. mesmo que nem sempre esteja por fora.

estes momentos de segundos sempre parecem horas até que houvesse resposta, se resposta houvesse. nada. silêncio em ecos, de nada adiantaria bater novamente.

rente a testa, esboço do que pareceria ser um bilhete, fui ali e já, presumiria-se, volto. mas como voltar se ele nem sequer tinha ido? se ele nem sequer tinha saído. se ele nem sequer tinha sido?

mão batida na porta lembrava sinal do black power. havia musgo na porta. se havia musgo não havia solidão. pois havia ali um sinal de vida, ainda que esverdeada. uma punheta de vida, vida punheta mais vida, quiçá um punheta da imaginação. mas isso foi antes do silêncio substituir a solidão.

casa de poente levava com o sol todas as tardes, fazendo quase ferver pote d´água servilmente colocado para matar a sede de companhia do inacompanhável. fazia isso várias vezes ao dia, únicos momentos em que era visto em longas conversas com os gatos da rua. diálogos de ronronados, miados que ele respondia numa língua ora imaginária, ora bem real. entendia e fazia-se entender, julgava sem pressupor outras traduções. mas tinha um princípio:só discutia com os gatos as coisas boas da vida. nada de mazelas ou chorumelas. desgraças nem pensar. ainda que muitas vezes elas estivessem à vista nas sete vidas multiplicadas que os gatos lhe traziam. com gatos não discutia nem filosofia barata. amenidades o tema da conversa de sempre. era o que precisava para dissipar-lhe todas as gasturas das suas incompatibilidades com o restante da vida que se puia a cada dia que lhe morria um bichano.

e punha-lhe nomes santos a todos. de acordo com a sua não religião. broken, era o preto e branco tigrado. rabo quebrado desde pequenininho. filho do caôlho. gato surrado. crecas à beça. feridas crõnicas em ouvidos abertos para sempre mas senhor da rua e de todas as noites até a do seu sumiço.

princesinha, a sua preferida de rabo flocado e traço angorá no preto e branco de gata de rua. aquela que cantava minuetos a sua passagem e que, breve passagem, amanhecera impávida a poucos metros de sua casa. contaria um gatil se fosse descrever todos os miados que lhe emocionavam sensivelmente. batmanzinho que mudara de rua, aquele que sempre estava de rabo em pé ao seu chamado. rabão, que outro nome dera mas esquecera e ficou este. cara escarrada e esculpida da face e dos trejeitos de princesinha que a substituira e de igual modo mui breve vida. e havia margarida. a mãe de todas. oito partos se contou direito. a gata que fazia correr todos os cachorros de carreteiros. fosse de dia, fosse de madrugada, e que agora debilitada, corria ao menor ruído, sinais de que andava sétima vida e já com ora marcada. ainda a irmã de princesinha. arisca, que nunca por nome teve, mas nome dado por agora. e que assim era, menos no dia do parto em que lhe deixou massagear a barriga de filhotes que só conheceria um, também vita breve. foi-se como todas as coisas vão-se com o tempo dimuido nesses tempos que anunciam que a ampulheta não pode mais ser virada.

toc! toc! toc!, sequer um miado. se for esperto alex já sabe o que isto denuncia.

o pote de há muito vazio, pequeno detalhe passado em branco, salvo quando o pisou ao voltar-se para ir embora.

do pote ressecado a história trincou-o na hora.

Thursday, October 05, 2006

dura lex sed alex

por aqui um tal que faz-me comentários. meio desconfiado de que é tipo semi-sádico. gozador. aparenta propósitos de incentivar-me a cometer mais crimes. mas sabe-se lá que mente tem de propósitos. é um gente de carne e osso. e isso é tão suspeito quanto também o sou. mesmo quando não sendo.

corruptor de maiores. passa cuspe em sua labia sim. vai tentando convencer-me de que é possível um mero escritor vez em quando
piar em mim.

quase diariamente me visita. apertou o passo. desde a semana passada, todos os dias. hábito que se continua, vira víço. inominável. qualquer coisa de quase baitôlagem, literária.
as vezes, confesso-lhe, até tenho vontade de dizer-lhe xõ! passa fora! sai! vicio. mas já estou lhe começando quase pelo fim nesta breve história de escritas. e a vaidade alimentada o vai apreciando, sem autógrafos. apesar de ter lhe dado confiança algumas vezes.

por isso todas as manhãs leio seus comentários. e escuto suas batidas à porta, chamando-me para mais uma incerta da lida.

da minha casa da escrita, frestas de porta e janela, mui recém revelada. vem da cumeeira sentimentos ruminantes. sem estuque, folhas secas estaladiças sobrepôem-se a meus passos. de memória levanto da cadeira de balanço bem no arco dos seus guinchos. tempos duros do meu avõ. daquela que marcam costas, de fios que sempre partem quando a coisa aperta. abro portinhola e não vejo nada do que ele diz que lê. nem na rua, nem dentro de casa. tudo instinto de um vazio só. sobra a vista de quintal pra ribanceira.

então volto pra dentro do balanço e produzo mais folhas e folhas de papel em branco sugadas pela luz da quase fantamasgoria de volta à cumeeira. quase compondo um tipo, meio de mágico meio de trágico, lá pelas tantas da madrugada, deixam de ser ecrã e tornam-se derramadas da mesa ao chão, no que logo-logo tem serventia na brincadeira de bolinhas rarefeitas da literatura em círculos produzida, e que jogo a cachorros e gata, formas de vida, que ela, a escrita, conhece em mordidas.

cachorros, gata de dentro, e gatos de fora, que são três, contemplados com intevalos esparsos, porém metódicos, das benditas para eles pausa na escrita. sabem que esta é a única utilidade deste exercício diário de nem sequer semestre. estreitar-mo-nos juntos por mais tempo possível. apesar de já tê-lo cronometrado para a extinção no grande livro de todas as escritas. onde todos os garranchos acabam em branco no correr do tempo. folhas mortas, por mais garatujos que as façam conter.

e assim, amargo-doce, se lhe desdigo, escrever no entanto, pra quê? se não conseguimos dar vida para os únicos personagens que realmente importam? e que realmente nos fazem companhia, até mesmo quando não merecemos? produzo-lhes apenas inútil jogo de palavras, que não conseguirá prolongar-lhes nada mais que uma cusparada certeira da anti-vida, que adianto-lhes já não anda nada divertida para nenhum de nós.

então, quando o tal alex amanhã bater-me a porta, vou soltar-lhe os cachorros e gatos em cima. quero ver como ele se sai, como se porta nesta caca de vida escriturada em que acabou aparafusado nas anotações dos meus guardanapos.

fundilhos à mostra, vou fazer-lhe apupado, acuado, meninada a gritar pega-pega, vozes de pés-de-cabra a lhe praguejar. anciâs a brandir-lhe o cacete a torto e a direito com pombos a lhe defecar. e até burros sem rabo a lhe coicear. escárnio da queda, com sorte não lhe cai pedaço arranhado. e, principalmente, quando o capenga, vira-lata tinhoso imaginário, construido a partir de romário, o pequeno cão de perna dura, marrento como ele só, que assim como apareceu um dia sumiu, como tudo há de ser na vida seja escrita ou não, em vez de dentar-lhe a bunda, mijar-lhe o pé rapado de admirador.

aí, talvez ache que realmente estou me tornando algo mais que um quatro paredes de escritas. e, se assim for, levo a cadeira de balanço para a calçada, e aposento de vez o compurscador.

(visto assim também, talvez o alex não passe nunca mais por aqui. embora não se vestisse na pele de bajulador. mas, ainda se assim, se não fosse ele, o que seria de mim agora, escritor?)

Wednesday, October 04, 2006

conversa privada ou uma conversa do caralho

— olha aí você caralho. inerte. podia ter comido todas as mulheres do mundo. mas não, fixou-se numa. essa foi mesmo do caralho.
resultado foi este suicidio do caralho. enforcado aí caralho. dependurado em duas bolas, caralho. preso entre pernas, sem asas caralho. mais parecendo caralho de quem amarrou pedra nas pernas, para ter certeza , sabe-se lá por que caralho, de que esse caralho não cisme de boiar.

e aqui está. em vez de afogar o ganso, caralho afogado em mágoas. triste caralho. coisa inútil de mijar. não serve mais nem pra acertar no buraco da privada. mas que caralho!

— vou te dizer uma coisa, caralho: porque ainda sou teu amigo e não tenho o menor saco pra te ver assim caralho. caralho não nasceu pra morrer apaixonado, caralho. caralho nasceu pra morrer duro, caralho. com tesão até pela morte caralho. então vê se se arma e ressucita caralho. porque caralho mole nem a morte quer levar caralho.

— tá surdo caralho filho da puta? não ouviu o que eu estava falando não? mas será o caralho do benedito? anda! balança a cabeça diz que sim ou que não caralho!

—ah! é é? vai continuar dando mole assim pra ela caralho? então dá um tiro na cabeça, caralho. vai te fuder!

— eeeiii caralho! na cabeça do caralho não, seu merda! na sua cabeça. vai ser desmiolado assim na casa do caralho. seja pelo menos civilizado caralho: onde já se viu mirar no porra do caralho? enfia a porra do cano na boca caralho e ai dispara, caralho.

— mas o que foi, caralho? ainda por cima, caralho! quer que eu puxe o gatilho? bom então lá vai. que se foda o caralho(caralho se fudeu).

(mas que caralhozinho de merda este caralho, agora pra valer morto de apaixonado. que fim do caralho. não? caralho!)

Monday, October 02, 2006

mindinho, seu vizinho, maior de todos, fura-bolo e mata-piolho

com meio pau já enfiado na garganta de betty boop, brucutu ainda meio em dúvida se enfiava ou não três dedos na dona dos buracos achados e perdidos em vinte e cinco quilos.

oito anos no máximo. comprada a custo de chicletes. meio copo de cerveja. e, vá lá que hoje estava de coração mole, terça-parte de saco de feijão. pedido quase brochante daquele irritante — moço é pra mói de dar de comer a minha irmazinha, que nem mamar peito mais força mãe tem.

dedo no cu hoje não convém. dia de manicure. unhas feitas, brilho batendo com sete dentes de ouro. troféis de sacrifício. podium de quinze anos de poeira pedra e lama. peso do mundo todo a sufocar por cima. labuta desumana sem futuro. tudo pra família. catorze filhos. nove de fêmea. cinco de macho. e um que não prestava pra nada não. alesado desde pequeno. anda mas não pensa. ri de baba. e das necessidades, se faz sozinho, mela tudo. tentou dar, mas não apareceu nem um coração bom pra aceitar. pra o senhor vê como anda o mundo hoje. já fio das outra não conta, pedra de terço, que reza o sustente.

mindinho então nem pensar. que pra chegar unha assim naquele tamanho de dedo, unha foi quase obra esculpida com muito de si. sabe-se lá com que pedidos a deus ou ao diabo, pra ficar daquele tamanho, quinta maravilha da natureza. ainda mais porque erigida dentro do ofíco de cavar com as mãos, ofício que se engane não seu moço, já deixou muita gente cotó. e só lhe digo isso pra não ficar desvalorizando, achando que é orgulho exibido, mas que é exibido, principalmente nos bons almoços. dá jeito palitar o charque, manejando a alavanca de calhau, com ar de desprezo pra coronel. na catapultada dos fiapos ao chão então? infalível. com direito a glória se fiapo de manga. muitas das quais gargalhadas, enquanto todo mundo fica fazendo munganga de língua e palito que não resolve.

enfio não enfio, enfio não. ainda sujo unha. cu de besouro, mas quem duvida que merda dentro? desiste, e arrasta cabeça de menina toda pra barriga aos gritos: — engasga! porra! engasga!

betty boop não engasga. vomita gosma de bílis, sangue e uma titica de comida qualquer, misturada com a porra de brucutu. leite branco que desde menos criança não vira bebê. mais sustança que tudo que lhe vem de dentro da barriga pra fora. meleiro só, mais cheira do que vê, visão tateada do brutamontes.

movimento brusco, cabeça para trás, solavanco, que nem no estertor do gozo brucutu consegue segurar. betty chupa agora o ar de fora da boca. gosto de vida que sai e que entra, rasgando rosto no afã de não sufocar com unha que podia ter rasgado o cu de há muito temente. sente a navalha mas não chora. dono da unha urra de dor, mais de orgulho que de física, e pragueja pra todo o mundo ouvir:

minha unha, sua bobônica! sinhá cabrita, minha uinha! sá rapariga, cê sabe quanto tempo eu levei para deixá-la assim? tem mais tempo do que tua idade e nem isso tu respeita nos mais velhos?

e feijão, um caralho! um caralho!

betty boop ficaria mais que uma semana sem comer o que quase nem seria mais novidade. rosto infectado, mais de bactéria do que de vergonha. família também. menos por solidariedade e mais por falta do ofício.

daí em diante, até hoje, que tem 12 anos, sabe-tudo de veterana, betty boop examina as mãos antes de colocar qualquer coisa na boca. e ao menor cheiro de esmalte começa a vomitar bílis e acetona.

afora isso a vida vem lhe tratando bem. com unha ou sem unha, não tem dedo no cu, do mindinho ao mata-piolho que seus 34 quilos não aguentem.

Saturday, September 30, 2006

de corpo santa

— não posso perder a missa das cinco, não posso perder a missa das cinco. repetia quase em contas, enquanto apertava o passo em um terço.

subiu a escadaria da igreja como se fosse um anjo alado. num átimo estava no atrio. menos um sinal da cruz, alojava-se no confessionário.
contrita assistiu os preparativos iniciais. em pleno sermão masturbou-se gozando em comunhão com o espírito santo. antes de correr para receber a hóstia, enfiou os dedos na buceta e lambeu os dedos quase gargarejando. uma espécie de preparação de consagrar a hóstia a sua maneira. e assim foi, hóstia deslizando-lhe a garganta, o corpo de deus, gosto de sexo, em mais que perfeita comunhão.

livre dos pecados, em casa bem na hora do jantar e antes do marido. faz-lhe a mesa com carinho e devoção. serve-lhe sopa, pão e café forte, como ele gosta. — ainda tem sobremesa do almoço, quer um pedacinho? diz-lhe carinhosamente, afagando-lhe os cabelos.

recolhe os restos do jantar, forra a mesa, coloca o jarro com planta de plástico e lava os pratos. religiosamente como faz desde que casou há 3 anos. verifica todas as portas, apaga as luzes da sala, liga a luz do quintal e só então vai assear-se para dormir, apesar de sentir-se completamente limpa.

camisola perfumada, cabelos pretos molhados, e um colo que revela seios como sinos a provocar badalos. cheiro de sexo no ar. marido nem quer saber mais de futebol, desliga a televisão bem na hora da cobrança de um penalty, pensando ele em marcar o seu. ajeita as bolas na marca da cobrança, quando ela investe-se de juiz e não autoriza a cobrança. diz-lhe da dor de cabeça: — não vê que hoje eu nem rezei? argumentação infalível, fazendo da bíblia e do terço que ao diálogo assistem, quase testemunhas de jeová.

há que consentir o marido em dormir com o saco cheio. sabe desde o noivado que ela não vive sem reza e sem comunhão. e se dor assim, não a deixa nem rezar, já hábito preparativo para os finalmente, não iria ele forçar o caminho do gol, deus me livre, de coisa assim não abençoada.

ganha dos cabelos molhados beijo de boa noite. e adormece como um anjo ao lado daquele corpo que tem o gosto de deus.

Friday, September 29, 2006

stand by me

— dois tiros no meio da testa.
— pra quê irmão?
— pra combinar com as fossas nasais.
— jesus santíssimo! que combinação.
— irmão: só tinha bosta na cabeça. até fiz um favor a família. agora o velório nao corre o risco de tornar-se mal cheiroso.
— e o restante da munição?
— descarreguei concomitantemente a um pai nosso contrito, em perdão pelo uso da blasfêmia como expediente de motivação.
— podemos ir agora irmão marcos? este lugar me deixa nervoso.
— é só um stand de tiro padre ventura. não deixa de ser um lugar de aperfeiçoamento e fé na alma humana.
— deve ser o cheiro de pólvora, coisa do diabo, me sabe a enxofre, cruz credo!
— o diabo não atira em alvos de mentira padre. mira em nós como já fez. e não pretendo servir de alvo da paróquia pela terceira vez.
— sei não irmão marcos, acho que as vezes o senhor vai longe demais.
— os caminhos do senhor padre ventura são inexplicáveis em muitas situações.
— mas a fé só não devia bastar?
— padre ventura, não tenha dúvidas, de que se for preciso eu vou atirar com muita fé.
— louvado seja o senhor.
— o senhor seja louvado.
— amém! (fazendo o sinal da cruz na testa).

Thursday, September 28, 2006

nem fudendo

no meio da frase o personagem bateu pé:
— para que eu quero mijar.
— não dá para aguentar um pouquinho? só falta meia página.
— pôrra nenhuma! tem de ser agora. já estou segurando faz mais de meia hora.
— não levo mais de 5 minutos. depois da curva na frase, você pode mijar a vontade. você mija, eu mijo, todo mundo mija, todo mundo fica feliz.
— feliz é o caralho! estou a dois capítulos sem mijar, tomando todas numa house-beer que é para você demonstrar seu falso conhecimento sobre alemãs, bavárias, belgas, japonesas, portuguesas, inglesas, e sabe-se lá de onde vem tanto rótulo e nem uma mísera ida ao banheiro. vem cá, você não se toca que até o leitor mais abstêmio está desconfiado? ninguém bebe tanta cerveja assim sem mijar seu escrivinhadorzinho de merda. e tem mais, foda-se! eu destesto cerveja.
— tá bom, é que eu fui me empolgando com a história e me esqueci deste detalhe. mas olha, só você que notou.
— claro seu energúmeno, eu estou me minando desde aquela hora que você me sentou a frente de um telão que exibia um vídeo sobre as cataratas do niagara, aliás, puta que o pariu! que adequação, que momento de inspiração. com tanto lugar para viver e eu tinha que estar nas páginas de um tarado por líquidos. mas chega de papo, quero mijar, vou mijar.
— não dá revertério não, que eu faço você sumir do mapa.
— era tudo que eu pedia a deus, melhor do que me mijar no meio da página.
— não se atreva!
— não? quer saber, chega de papo! vamos à ação. então toma lá, escorrendo página abaixo, a minha cachoeira. rio de belga, alemãs, japonesas, aquelas porras todas, tudo misturado, tudo agora em uniforme de urina, rá, rá, rá.
— e agora seu personagemzinho de merda, como é que eu vou fazer com a página toda molhada?
— toda não, só meia.
— meia, toda, lá vem você com detalhes de novo.
— sei lá, faz do mijo uma ilustração, daquelas não sei o quê d´água. eu mijo você assina. pronto. libero meus direito autorais. agora já mijei. a gente se encontra depois. ou passou a sua vontade de mijar?
— de mijar não, de escrever, acabei de matar você como um mijão de página. sabe qual é o texto?
— só pode ser de água.
— ledo engano, meu caro personagem. mijou fora do caco, evaporei-te. comigo é assim. melhor ainda: dei-te uma mijada. e te arrastei para fora da página, do livro, da minha vida.

eu heim! essa coisa de personagem quando se mete a besta a gente tem de cortar no ato. que merda é esta? personagem querendo cagar regras? mas nem fudendo. a besta aqui sou eu. e isso personagem nenhum tasca.

Wednesday, September 27, 2006

da falta de sorte, tiquim

a primeira vez é para sempre a primeira vez, não importa como ou do que seja. é a primeira vez. da primeira a última.

dá frio na barriga, garganta seca, zumbido no ouvido, coração dispara. em muita gente, dá vexame, dá caganera, dá fogo pagô. mas vira essa bôca pra lá. não ia ser comigo que isso ia contecer não, pensou zétiquim. não ia fazer da primeira vez , uma cagada da última, assim na hora de rombar, se tiver de ser, furo mais de uma, dou duas três mas não sem tirar de dentro.

fungou, segurou no pau, ainda que a coceira fosse no cu, e mandou ver, postado na esquina escura de cúmplice e na calçada armadilhada de buracos. um metro e cincoenta naquela situação era diferença que ia fazer supresa aumentando metro e meio pra corpanzil. e tem mais: aquela porra de tênis esgarçado roendo dedo mindinho agora é chuto na parede de raiva acumulada.

só voz afinou, na hora que se vez vulto vistoso na frente do vulto que encolheu e empacou. segurou o colar fazendo gangorra com estilete no vulto que ria do nelvoso que ficou. tecido fino de vestido embuchado sangrou levemente piando grosso na veia da garganta. ferrugem abrindo buraco, nem ví a cara da madame? sei lá, era uma coisa véia que té peidou no ato do movimento brusco e serviço completo. colar na mão junto ao corpo, lambeu a cria.

correu mais que a sombra, postes de menos na calçada facilitaram a fuga, menos um putaqueopariu plantado bem ali no meio da testa. zonzeou mas não caiu, cabo caiu, mas e daí? estilete que era sargento já tinha desertado.

horas mais tarde, noticia quente de corpo frio. frei emanuel, que tantas vezes tinha salvado zétiquim de muita surra fora achado com estilete rombudo na pança que se ria muito com zétiquim que perguntava se naquela barriga tinha menino gordo.

menino zétiquim olhou pro terço na mão e ainda sem saber se era virgem ou não pensou que sua reza ainda era pura pra acompanhar alma de frei emanuel que agora sabia zétiquim não carregava outro menino no bucho que não ele.

Tuesday, September 26, 2006

instituto médico legal

vira e mexe! relembrava, enquanto costurava a barriga da defunta com mais tesão do que precisão .

ao fim do alinhavado, concretizou o decúbito dorsal e bateu-lhe a última punheta. a bunda jazida em pedra fria recebeu a última homenagem quente da porra. dependendo do ângulo, fato odioso. daquele ponto de vista da morta, amoroso.

a dançarina deca-dente de cabaré barato, que a esta altura da morte jamais sonhara em ter admirador assim tão caloroso, se fosse viva, diria ofegante que agora já podia morrer em paz.

serviço feito, o doutor consultou o relógio, hora de apanhar as filhas no colegio. e lavou as mãos, como fizera antes, de prestar a sua última mesura.

o instrumento de corte e costura continuaria melado. mas pronto para outra.

Sunday, September 24, 2006

o iluminado

ainda não sou escritor. mas bonga, bonga, bonga! já descobri a matéria prima do ofício. quem pensou na vida, descrita ou recriada, lamento informar, mas com base nisso um escritor nunca vai cair da estante.

a matéria prima do escritor, aha! é a solidão. e quanto mais talento solitário tiver o escritor, mais solidário for ao avesso do vazio, mais extrairá da mesma o suprasumo da matéria, que é o silêncio. sim, o silêncio! psiu!, a ararinha blue ou o mico leão dourado de qualquer romance ou hai-kai que se queira levado a sério.

é lá, bem dentro do silêncio, que está o magma. gosma que aquece o cérebro e o faz jorrar a história que não se quer cinza. ou o iceberg trincado pela ponta da caneta, sim porque ainda há quem escreva à mão, que parido de morte, inunda a página em branco com palavras que se dispôem a contar uma história para não morrer de hipotermia.

sem o silêncio não se consegue escrever. e, com certeza, é preciso bem mais do que um hotel nas montanhas geladas para ser o jack nicholson em versão. sim, porque há quem consiga o silêncio no meio da mais infernal turba e quem não o consiga no mais celestial dos cumes ou no mais abissal das tumbas. o silêncio está no sombrio apenas enquanto disfarçe para muitos. para outros, é um verdadeiro carnaval.

os dizeres do silêncio vem em sustenidos, como silvos dos morcêgos. são inaudíveis para a maioria das pessoas mas não para os vampiros das palavras. aqueles que sugam jugulares de oxítonas e paroxítonas com a sede das proparoxítonas. não basta sentir o gosto de sangue. nem levá-los a imaginar tão-somente. é preciso fazer isso com a precisão do terror do silêncio de quem lê. se o leitor balbuciar qualquer hiato, pronto! você é um vampiro de dentaduras. e se ele fizer a leitura e no meio do parágrafo sentir vontade de comer o barulho de um sanduiche, desista agora mesmo. o seu siêncio é de camelô.

apesar de muita sede, mais muita mesmo, ultimamente não tenho conseguido exercitar a o silêncio na escrita. e logo agora. que justamente fiz esta descoberta da pólvora ou do polvilho, todo o barulho do mundo cismou de bater a minha porta. e de dar peteleco nas minhas orelhas. é a gata no cio, cães enciumados do vizinho, disco novo da banda calypso do pará, cano de escape furado da 125 do entregador de pizza, peidos do filho gordo do vizinho que já foi gordo. dos assovios de sua mãe que sempre foi convidativa, agora viúva e magra, e que agora mais do que nunca estimula as rimas do repentista de cordel apaixonado. e, claro, estamos em campanha eleitoral.
convenhamos que para quem procura tal espécie de silêncio, o arrulhar dos pombos já seria barulho que perfura os tímpanos. juntamente com o ronronar dos meus intestinos em nervos, bateria de escola de samba. sim, e eu nem computei os alto-falantes da igreja evangélica a mais nova ameaça dos céus. o silêncio é para eles não é ouro, é dizimo. para ser um escritor do barulho, repito, tem de haver silêncio.

há dois dias estou frente a uma página em branco que não consegue dormir com tanto barulho. já fiz de tudo para niná-la tentando conseguir para ela o mais puro silêncio pré-natal. impossível, digo-lhe solidário com o barulho das minhas olheiras que impede as pálpebras de se fecharem.

no limite do sussurro da minha força física para calar o incalável eu digo a mim mesmo de forma quase inaudível que não aguento uma noite a mais. tenho os braços e dedos mordidos de acessos de raiva. a pressão da escrita faz o encontro das águas com a pressão arterial. estou uma pilha muito barulhenta. sístole e diastole encaminham-me para a pororoca. não serei um boom! mas um poom! de vendas. mas aí eu já estarei morto e mortal, desatino mas prefiro, porque os escritores imortais são muito barulhentos com suas canecas de chá e biscoitos estaladiços. e isto é uma puta de uma sacanagem para quem procura o silêncio mortal, necessário como vimos, para a ressureição em trombetas das escritas. se bem que já não duvido de mais nada. muito menos que os mortos sejam brindados com o silêncio do escritor, coisa de que já duvido muito menos ainda quando me vejo no ofício observado em velório de alguns parentes próximos, que nem se quissesem ressucitar, o poderiam, diante do estrepitar das palavras ditas de corpo presente e ouvinte por força das circustâncias ou absoluta falta de opção. entre um comício e um velório eu prefiro o primeiro. com toda honestidade acredito que a desonestidade dos políticos é sempre mais sincera do que a dos parentes.


com idéias de castiçais na cabeça, muito pouco genealógicas, saio decidido e atravesso a rua de um lado a outro fazendo contas. são cinco horas da tarde e o armazem de ferragens só fecha as cinco meia. 500 metros, passos a velocidade de 5 km por hora, não sei se tão lépido e fagueiro, mas sei que chego com folga. uma ligeira farra do ofício é chutar os cáculos e depois corrigi-los com frase ainda mais desconexas. alguém aí já se certificou de andar a 5 quilòmetros por hora é garantia de cumprimento do trajeto. e se...

sem folga no cabo respondo ao vendedor. e por favor, dêem-mo-no acunhado que esta noite eu preciso cortar alguns males pela raiz. e não convém fazer barulho na vizinhança reeditando a cunha, cabo apoiado no meio-fio, batidas lancinantes de aprumo a lâmina, assustando os gatos e cachorros que rasgando sacos de lixo, sugerem-me não fazer corte serrilhado, inda que lâmina virgem, audível esquinas adiante. sou muito novo no ofício para ter nóias, que valham a pena divulgar. mas pelo sim pelo não, evito os olhares animalescos de testemunhas indiciantes com que os animais me lançam acusadores até o rabo que não mais balanço até me sentar.

se depender de mim, aquelas duas páginas em branco agora vão virar manchete suculenta depois de amanhã. depois de muito barulho a rua finalmente vai ficar silenciosa tempo suficiente para pelo menos escrever a morte da burra. depois, manhã nascendo, timbres taquicárdicos das sirenes das ambulâncias da polícia e do samu, eu pensarei noutras soluções para chegar ao silêncio necessário para a segunda página. afinal, começo a definir meu estilo como a de um escritor de ação.

por agora, trata-se da primeira. se eu não partir o cabo do machado em mais um destes meus golpes de literatura, nem será preciso reescrever tanto. por vias das dúvidas, vou começar pelo garoto de barriga mole e peidão. as pessoas ficam sempre muito sensibilizadas com isso. de garantia deixo-lhe perna com coto e sirvo um pé para distrair a atenção para minha imprecisão com as vírgulas. um pouco de bosta no sapato que sobrar também dá jeito de cult. ouso ou não ouso, o vai-e-vém do pensamento faz-me um barulho ensurdecedor, como linha de cerol serrilhando o cano mínimo de bota infantil, de cor preta traste, dando trelas ao nunca mais agora cotó.

nem bem limpo o machado na banha do bucho do garoto gordo de intestinos podres e agora sim! começo a sentir os eflúvios do silêncio, que me é tão necessário. ah! a paz do silêncio. pombas! isto vicia, livrando-me de alguns resquícios de sangue, como pingos nos is, very, very cool.

escrever assim não me fez suar como pensaram. mas deu um trabalho que trouxe consigo os primeiros calos nas mãos, que quase rompem-se pela falta de verniz. espero que com a prática, eu consiga fazer o serviço com mãos de escritor. quem sabe com o tempo o corte do machado seja alíseo no ventre das palavras paridas em suspeição.

Saturday, September 23, 2006

disléxico

muitas reticências em minha vida, confidenciou o personagem. ninguém aguenta viver assim, desabafou. prefiro um ponto final. e dito e escrito, sumiu entre a página anterior e a página posterior. ironicamente deixando as mesmas reticências contra as quais se suicidou.

encadernação

sua morte, como p(r)ensada, não havia deixado uma vírgula sequer de pista sobre o que fazer com o resto da história. além do mais só poderia comprometê-lo, tornando-o cúmplice. não teve a menor dúvida, seguiu-lhe o destino, pensando na vida como hemingway. os revisores também não o reconheceriam na escrita do corpo. o título do morto daria peça de capa ou apenas nome de capítulo?

Wednesday, September 20, 2006

o bunda larga

cybercafé horário de pico, hora de ponta, rush. gritinhos em colméia denunciam proximidade de colégios, muito mais do que anunciam fardas. abelhinhas no cio, indômitas para acessar o orkut, a comunidade de relacionamentos que é o mais estrondoso sucesso em matéria de rela-rela por ratos.

em meio a tanto mel, e tantos ferrões, ele está também a espera por um computador. mas a sua comunidade é outra. seu relacionamento é aquele dos dedos tamborilando à seco, no chek-to-chek do toma lá dá cá. briefing do que volta e meia vai e vem. e da criação que vai e vem e volta. e volta, e volta.

a mais bonitinha, olhando-o de cima a baixo interpela, e com sua voz de coxas em pelinhos leiauta: — o senhor tá na vez ?

não é por nada não. mas aquele senhor não fez plug in mim nem via usb, disfarçou. mas percebeu fire-wire, e em nada virtualmente, que seu hardware denuncia que o tempo pra ele passou. ainda que rode um software onde seu coração ainda bata teen. tão teen. teen, teen, teen. e percebeu meio sem graça que estava ficando fora de linha. e que muito em breve as teens já não lhe darão nem bom dia. quanto mais bundinha. no máximo, doarão. por mais que isso lhe doa. mas aí, ele não aceitaria, para não ficar com cara de disquete, logo ele metido a velox.

— ei! depois daquele senhor o próximo computador é o meu, tá? pelinhos na coxa, cheia de sardas, bits e bites, scaneou até a calcinha, senhor da informação. ela tão digital e ele, agora, sexo analógico ?

Tuesday, September 12, 2006

quase-demonstração

bom de papo o vendedor mira que atira: - faz o maior estrago. serrando o cano, se mirar na barriga, o cú do cabra vai junto. se ficar com o braço mole, o coice lhe arranca os ovos. essa arma é bendita. pode levar sem susto que a mardita não faia.
o comprador indeciso: - tem uma coisinha mais forte não? é que doze pra mim é coisa de 24.

solo

nem bem cantou e matou o dueto a pau.

nome próprio

filho da puta, foi sempre assim que o pai lhe chamou. mas o escrivão, decerto teve pena, e abreviou, né fio?

big-mac

queria comer nem que fosse um sachê, morreu em frente, cheirando coca-cola.

saúde pública

primeiro ato:
posto de saúde do inesseesseesse. paciente soro só, finda veia de positivo e faz troça de que o que transmitia aids era o pênis longo. enquanto gargalhava aos zumbidos e tomava mata-mosquito de um só gole final. pronto suicídio, chega as vias de fato, em vida sem socorro.

segundo ato:
funcionária da limpeza desesperada com aquela presepada toda de corpo decompositando-se quase de imediato no salão. - esses filhos da puta ainda acabam com minha coluna e o que é pior: com o quase nada desta merda de detergente. assim, carai! não tem saúde que aguente.

terceiro ato:
funcionária da limpeza tomando esporro da supervisora do posto: - puta que o pariu! gisélia. tá querendo me fuder com a diretora é? tás pensando que detergente é refrigerante caralho? nem bem quinzena e tu já gastou doze frascos. não sabe que não temos verba para isso?

quarto ato:
diretora para a imprensa na frente do ministro: - fazemos das tripas coração para salvar vidas. pra vocês terem uma idéia nós aqui nem verba suficiente para detergentes de limpeza temos.

quinto ato:
ministro, em close: - nós já estamos providenciando mais empenhos para as verbas de detergente. não vai ser por falta de limpeza que nossas unidades vão deixar de prestar à população a assitência à saúde que eles merecem.

cai o pano de chão.

Monday, September 11, 2006

quase reveillon

espumante, pipocou com direito a estoiros nas artérias. dependências principais do edifício do seu coração alagados trenchtown favela da maré. seus sentimentos foram detonados por triglicerídios idiotas que engarrafaram o acesso num racha com o colesterol. seu cardiologista bem que avisou. exercite-se, use a faixa de pedestres senão você catacumba na esteira. não deu outra. padeceu vítima das sanguineas colapsadas por edema. nem um bilhete, nem um sonido qualquer. apenas o cão uivara de véspera. agouro difuso e confundido por medo dos fogos. agora dono jaz. e o cão leva com a rolha.

Wednesday, September 06, 2006

O -

doava sangue em prol da humanidade de um sanduiche. mortadela pouca, esguinchou: a humanidade que se foda!