Thursday, September 28, 2006

nem fudendo

no meio da frase o personagem bateu pé:
— para que eu quero mijar.
— não dá para aguentar um pouquinho? só falta meia página.
— pôrra nenhuma! tem de ser agora. já estou segurando faz mais de meia hora.
— não levo mais de 5 minutos. depois da curva na frase, você pode mijar a vontade. você mija, eu mijo, todo mundo mija, todo mundo fica feliz.
— feliz é o caralho! estou a dois capítulos sem mijar, tomando todas numa house-beer que é para você demonstrar seu falso conhecimento sobre alemãs, bavárias, belgas, japonesas, portuguesas, inglesas, e sabe-se lá de onde vem tanto rótulo e nem uma mísera ida ao banheiro. vem cá, você não se toca que até o leitor mais abstêmio está desconfiado? ninguém bebe tanta cerveja assim sem mijar seu escrivinhadorzinho de merda. e tem mais, foda-se! eu destesto cerveja.
— tá bom, é que eu fui me empolgando com a história e me esqueci deste detalhe. mas olha, só você que notou.
— claro seu energúmeno, eu estou me minando desde aquela hora que você me sentou a frente de um telão que exibia um vídeo sobre as cataratas do niagara, aliás, puta que o pariu! que adequação, que momento de inspiração. com tanto lugar para viver e eu tinha que estar nas páginas de um tarado por líquidos. mas chega de papo, quero mijar, vou mijar.
— não dá revertério não, que eu faço você sumir do mapa.
— era tudo que eu pedia a deus, melhor do que me mijar no meio da página.
— não se atreva!
— não? quer saber, chega de papo! vamos à ação. então toma lá, escorrendo página abaixo, a minha cachoeira. rio de belga, alemãs, japonesas, aquelas porras todas, tudo misturado, tudo agora em uniforme de urina, rá, rá, rá.
— e agora seu personagemzinho de merda, como é que eu vou fazer com a página toda molhada?
— toda não, só meia.
— meia, toda, lá vem você com detalhes de novo.
— sei lá, faz do mijo uma ilustração, daquelas não sei o quê d´água. eu mijo você assina. pronto. libero meus direito autorais. agora já mijei. a gente se encontra depois. ou passou a sua vontade de mijar?
— de mijar não, de escrever, acabei de matar você como um mijão de página. sabe qual é o texto?
— só pode ser de água.
— ledo engano, meu caro personagem. mijou fora do caco, evaporei-te. comigo é assim. melhor ainda: dei-te uma mijada. e te arrastei para fora da página, do livro, da minha vida.

eu heim! essa coisa de personagem quando se mete a besta a gente tem de cortar no ato. que merda é esta? personagem querendo cagar regras? mas nem fudendo. a besta aqui sou eu. e isso personagem nenhum tasca.

2 comments:

Re said...

amei!! bjs RE

Alex Camilo said...

Ótimo exercícío metalinguístico!!! A construção do diálogo ficou do caralho! Creio que teu método está sortindo efeito, esse texto foi dos mais inspirados. Os personagens tão mais veróssimeis, vivos, com menos firulas linguíticas e jogos de palavras. Gostei muito, mesmo.

abraço