Monday, July 09, 2012

almoços de domingo


já algum tempo, nos domingos, almoço em paz. mcchickens. genérico que seja ou original. e pronto. de sobremesa, café em copo e vontade de fumar. antes da saída, em meio as meias mordidas, altura em que me lembro odeio maionese, de soslaio miro a testa franzida das atendentes e cozinheiras que penso em reclamações - me consegue um pouco mais de ketchup ou vai dizer que só tem mostarda? - não sei contentes em trabalhar aos domingos. também dariam graças a deus? que elas complementam com muito sachês de molho fora, aquele filho da puta, de trabalhar aos domingos para não ter de almoçar em casa? 


domingos tem um certo ar de prisão após a revista da semana. foram-se as armas e as drogas. resta o almoço em família para a gente se embriagar de crime. de sobremesa o faustão. a sorte é que a pena não é perpétua. mas é longa como o crochê das mágoas da vovó sobre as memórias do vovô que enfezado se mandou de casa e foi morrer de infarto num puteiro enfiado em pleno cu de uma adolescente. o retrato do meu vô foi retirado então da parede e naquele exato lugar ficou a marca, onde o bolor do mofo lembra o esperma da vida que ele despejou fora para não morrer ensimesmado dentro de casa como paio, um chouriço, outra denominação. as sobras das conversas do almoço de domingo todo mundo já sabe como reaproveitar. são servidas fritadas ao azedo que requentadas podem durar até a terça feira. isso se as vizinhas não aproveitarem o óleo para feitura do empadão de galinha com o destino de suas filhas, que diga-se de passagem são uns cu de bostas. 


almoço fora agora todos os domingos. mas do empadão ou da fritada, elas não escapam. nem eu. nem você. 

Saturday, March 31, 2012

anti morten

a morte já me cutucou com pressa.como destesto que me conduzam pelo ombro, refilei: dá licença de eu dar uma espreguiçadela diante da vida?

Saturday, March 24, 2012

o onanista

por acidente, tragédia, dor de barriga ou vento encausado. caiu, tombou, morreu. ai logo vem unzinho qualquer e diante do cadáver sussura para o próximo do lado: a morte é feia.

quem disse? quem viu? quem fuçou a cara da dita cuja pra fazer tamanha afirmação? quem o fez não disse nem que sim, nem que não. tava de sacanagem? vai lá se saber. mas é fato de quem viu não disse nada. mesmo os suspeitos que dizem que foram e voltaram. falam de luz no fim do túnel. mas desde quando luz no fim do túnel é a cara da morte? l uz no fim do túnel é a cara do dois irmãos.

porra, mas que mania de dizer que a morte é feia; quando o que e feio é o presunto ou a presuntada. comigo não rola esta história. quer saber, pra mim a morte não é feia não. acho que rola qualquer coisa nem que seja de coxas finas, cotovêlos limpos, nariz discreto mas empinado. qualquer coisa de beleza num certo mistério que quase todo mundo vê como história de terror mas que como toda história de terror toda a gente tem curiosidade de saber qual é. mas ninguém quer enfrentar assim de peito e olhos abertos. e muito menos de braguilha aberta. deveriam? sei lá, cada um é cada um, e cada um tem a sua morte pairando sobre a cabeça nos assuntando feito largatixa. e de vez em quando, ela aciona o bodoque. nós não já fizemos isto com elas quando crianças?


não fico em cima do muro. não acho que a questão seja urtiga. questiono, ah! questiono sim, que a morte seja feia ou tão feia assim. ainda vou tirar a dúvida. mas não tenho pressa. quer dizer, acho que ela é que não tem, ainda. temos outras prioridades ao que parece.

mas cá pra nós: duvido que, seja qual for a cara dessa dona, ela não valha uma punheta.
se não, porque será que todo mundo que tem pau, quando morre, morre de pau duro? 
a morte nós dá uma bolinada antes de nos botar de pés juntos? é um ocaso a se pensar. e ai vem o meu único receio: que nesta posição ela me aperte os ovos enquanto possa ainda tê-los.





 

Friday, March 16, 2012

replay
















mal acordou e mandou bala na família. sobrou pra diarista e vizinha abelhuda. pro gato banguela, passarinho bicudo e cachorro lelé. depois foi ver tv e ficou puto: noticiário andava muito violento.

Thursday, February 16, 2012

toco em papo babaca de arquiteto


- eu quero ser o niemayer das tuas curvas, sussurou o arquiteto formado em escola de bola fora.

ela deu de ombros e retrucou. - arquiteto? você também? então devia saber que niemayer não é nem um pouquinho funcional. é mais ou menos como você.

- olha bem para o monumento aqui, não perdeu a chance de cravar mais uma na testa.

menos, menos. parece bonito por fora mas em matéria de interiores não serve nem pra metralha.

e dito e feito, a mestre de obras voltou ao traçado original do seu trabalho..

Sunday, January 29, 2012

coisa de pobre ou deslize reacionário

mamãe! quando eu crescer quero ter um câncer! exulta o piá, o guri,o curumim,o pirralho, o puto,o moleque, para espanto da mãe que se pela em deus, na periferia de são paulo.

mas só se for para ser tratado no sírio, arremata; para alívio materno que solta a respiração enquanto concomitantemente afaga os cabelos em pûs daquela criaturinha abençoada.

(deus que tudo assiste, não é assim que dizem os pastores? conclui então que aquele espectro de homem, com braços e pernas em constantes saltirares estroboscóspicos decididamente vai longe - um dia ainda acaba presidente, ventila a possibilidade garatujando no bloco de anotações). 

e a vida segue adiante. o menino esfregando melecas na parede lustrando as cerâmicas. o deus dos tornados, que sequer imaginamos em senões assim tão faceiro, dá mais dois passos adiante, cuspindo catarro no tietê para não se mostrar impressionado com a visão de futuro que aquela alma ainda em pimbolim tem da epifania em sociedade.


Sunday, December 11, 2011

cigarro e gordura não combinam


cruzou o salão de dança, como se fosse em direção a marca de um duelo. dava-se para ouvir o coração em esporas. do outro lado, ela, envolta em fumaça do seu cigarro esfumaçante soprado pelos lábios incrustados no rosto de movie estar. vestido verde pistache, olhos de azeitonas pretas e pele de alabastro.

tinha certeza, ele, que ela o havia olhado algumas vezes. tomou coragem e foi lá. não é a atitude que importa?, então nem esmerilhou-se no que dizer, pediu um cigarro e aguardou a resposta para entabular a conversação. ela, soprou-o nos olhos e foi categórica: - desculpe, mas eu não fumo.

como saber onde se meteu naquele exato momento? tudo ardia nos olhos. não se lembraria de mais nada por um tempo quase infindável. se deu a volta, se foi ela que saiu. lembra apenas de fumaça, muita fumaça embaçando a vista do rosto que desapareceu e ficou entranhado junto com a fumaça na epiderme.

fogo-fátuo aquele rosto sempre a sumir e aparecer por entre a fumaça. e por ela haveria de surgir, dizia a si mesmo, crente-tolo, mendigando vingança. um dia apareceria. teria de aparecer. e quem sabe, se perguntasse? lembra de mim? de uma só tragada não hesitaria dizer: desculpe, mas eu não como, nem nunca comi comida gordurosa. e assim, dito e feito, jamais aconteceu. ela continuou envolta envolta na fumaça que a tornara inacessível mas somente àqueles que dizem que cigarro não combina com gordura.

Wednesday, January 12, 2011

axé demais até pras minhas veias


- um beijo no seu coração, disse ela.
- putz! que raios de pessoa manda um cumprimento destes? este eufemismo de cuspe nas minhas artérias eu dispenso. gente assim é capaz de entupir coronárias como se estivesse praticando yoga. e assim, dito e sêco, mandei-lhe a puta que a pariu!
quer me beijar pôrra! beija na boca, no mamilo, na ponta do meu cacete. agora no coração é os escambau!

Wednesday, November 24, 2010

psiu!


um tiro na testa e tombo. o coração nem disparou pego de surpresa. o amor quando finda é como arma equipada como supressor. ninguém viu, ouviu ou sabe do que era destino certeiro.

Tuesday, August 05, 2008

exame ótico

apontou a placa e perguntou qual a primeira letra da fila. ele, cego de paixão, respondeu a de amor.

estava mesmo precisando de óculos. seu amor traíra enxergava outras possibilidades justamente com o oculista.

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Now playing: nuno mindelis - iberic blues
via FoxyTunes

Saturday, January 27, 2007

revisão pra lá de ortográfica

neste exato momento e por um bom tempo, estamos em fase de pesquisa e reedição dos textos. voltaremos sim. mas vai demorar um pouquinho. espero que você me espere com eu espero lhe ter de volta.

Friday, January 19, 2007

de calado baixo ou navegar não é preciso

a vista da orla de fortaleza é deslumbrante principalmente para quem chega por mar. o por do sol idem. nem precisa ser visto da ponte dos ingleses, inebria. não se sabe a hora, mas o certo é que numa manobra padrão, alguém entrou em êxtase. e encalhou o cargueiro de frente para a praia fugindo a raia da barra. também não se sabe por descuido, motivado por tal inebriação. ou, indo mais além, propositadamente. quem sabe para curtir o visual de um ponto de vista ainda mais privilegiado. o barco agora não sai. encalhado, dá nas vistas na praia cheia de vistas. a tal imperícia custa caro. mesmo que alivie-se a carga, e que venha a maré de janeiro, dali só se arranca o cargueiro, com a ajuda do rebocador que está vindo do rio também de janeiro. a passos de tartaruga vem o rebocador, uma espécie de popeye dos barcos, cuja função é retirar os "brutos" da enrascada em que se meteram. a história é real é acontece agorinha mesmo numa praia de fortaleza que não cito o nome, para não dar margem a outros encalhes. cargueiro, beleza, inebriação, mar, encalhe, pequenos fortes, grandes entalados, ou melhor encalhados, fortaleza. palavras, estados e situações com vários significados e significantes. creio que nem você nem eu precisamos estar encalhados e ou inebriados para fazer ilações e ou analogias com o que fazemos do nosso barco(cargueiro ou rebocador?)quando inebriados ou simplesmente cansados, preferimos a visão do encalhe a modorrenta postura de estar simplesmente atracados a um bom porto. muita gente, é verdade, nem precisa encalhar para se dar conta de que está prestes a partir ao meio ou a partir do meio. outros,eternamente encalhados, principalmente, onde não há belas orlas de por de sóis inebriantes, choram a falta do cais. entre um e outro a maior parte das gentes, não dos barcos, à deriva ou contemplativa. talvez mais dos barcos que encalham dos que chegam ao porto. eu olho pra mim e vejo-me um rebocador. quiçá de mim mesmo. reboca-dor? sim. pequeno que baste para não encalhar. nunca grande para merecer algo mais que um beirada de porto: ´quela onde também fica a maior parte do lixo que se acumula no cais. sempre lembrado pela força e utilidade. mas só nas situações de encalhe. nunca para simplesmente tornar-me, a mim, o rebocador, cargueiro dos pores de sol inebriantes na orla deslumbrante da praia da minha fortaleza que anda rasa de encalhes d´outros portes.

Sunday, January 07, 2007

método de criação

faltaram-lhe idéias.
isso já acontecia há mais de uma semana.
logo com ele, um criador de bom tamanho.
inimaginável até em ficção.
mas não contava, o vácuo, com a sua última sacada.
detonou o 38 por debaixo do queixo.
pronto, foi idéia pra todo o lado, aos montinhos.
recomenda-se não copiar-lhe o método.
a criação ainda assim, dizem os maus vivos, não valeria a pena.

Friday, December 15, 2006

à francesa

cor de coisa madura cheira a podridão antes mesmo de chegar lá.
deve ser por isso que a esperança é eternamente verde. pra gente não apodrecer comendo mais passar o resto da vida pastando por causa dela.
verde que te quero verde. quem vive de esperança morre de fome. não é assim que se diz? mas aí vem os vegetarianos e estragam tudo. cheios de restos de esperança mastigados entre os dentes. e como se não bastassem, mostrando a língua, feito uns marcianos de verde, para nós eternos discrentes que vivemos a mastigar a nós mesmos, esperança perdida?
a cor da esperança esconde o bife que somos apesar de e por ela.
podiamos ao mesmo sermos servidos como hamburgueres acompanhados de batata frita e ketchup para não desperdiçar os dedos.
pronto, olha só aí a gente cheio de esperança de novo.
mas o que chateia mesmo é que a esperança nunca vem acompanhada de guardanapos.
mas à mesa continua cheia de palitos.
si vous plait, monsieur.

Saturday, December 02, 2006

chicle de caixinha

amor de uma vida inteira, não tinha dúvida. não se tratava apenas de uma paixão adolescente, daquelas intepestivas a ponto de ser rabiscada no caderno oito matérias inteiro mas que como todo amor adolescente corria o risco de perder-se no chiclete cuspido na próxima esquina.

ela era linda. cabelos ondulados levemente ao chegar a cintura. um andar leve, 13 anos e a delicadeza de quem pode fraturar-lhe a vida para sempre, sorrindo inocentemente sem a malícia prestes a despertar como em seu segundo ano de menstruação.

mas havia um problema, em todo aquele amor surgido numa visão, dela, ele menino jogando bola na rua de terra e lama, num bairro popular de uma cidade ainda em tempos de ônibus elétricos. tinha os dentes podres, quatro, já cacos, doravante seu terror ao dentista.

entre a excitação dos encontros nas calçadas das tardes, os primeiros amassos quase incidentais e aleatórios ao fluxo dos transeuntes, o medo de soprar-lhe podridão na boca, aquela que todos teremos um dia mas devidamente resguardada num caixão.

era amor mudo, a meia distância, amedontrado, assim que passava o efeito cigarro, chiclete, hortelâ garoto, e sabe-se lá o que inventado para disfarçar o hálito amaldiçoado, ele retomava distância que o vento contrabandeava para amada.

tão puro de sentimentos, tanto amor, o peito limpo, os sonhos lençois de cetim perfumados, as mãos prontas a dar-lhe o inacessível mas a boca podre cujo hálito jamais ousara perguntar a ela o cheiro. como poderia, como se faz isso, quando se tem 13 anos e se namora a menina mais bonita e rica do bairro?

esquece isso, amigos do futebol, consolam. quando se ama isso não tem importância. como não tem importância? sabia bem o que tinha na boca, assim como sabia o que tinha na alma. um sofrimento de igual para igual com o amor que descobria cada vez mais amordaçado pelo estado da sua bôca.

gostaria tanto de falar de pertinho, de dizer-lhe coisas com cheiro de franboesa, de demonstrar-lhe amor com hálito de um dulcora inteiro mas sem disfarce. sem ter de virar-lhe o rosto na hora em que ela puxava-o pela nunca e ele afastava-se defensivamente, o que acabaria premonitoriamente afastando-a para sempre.

tomara uma decisão. pelo amor tudo, já vira nos filmes de romeu e julieta, love story. há que se fazer sacrifícios, há que se ultapassar limites, há que se lutar para se conseguir alcançar a paz. e ele iria fazer isso. se por ela enfrentara tudo, inclusive aquele monstro de dois metros de altura, seu cunhado, disposto a trucidá-lo em nome da moral da irmã mal saída da menarca, porque não enfrentar o doutor paulo, o dentista boa praça do bairro? amanha, oito e meia da manhã em ponto estaria lá. iria limpar a boca, sua obra secreta de amor, imaginava o dia em que falaria de frente, sem aquele gosto ardido de um spray que durava meia fala e só atormentava no bolso a espera do momento que nunca viria para repetir mais doses escondidas, pior ainda a vergonha se descoberto com a boca na botija.

oito e meia da manhã, abriu o portão e sentou-se a espera naquela casa consultório, quarto da frente tortura, terraço espera, sala passagem quando não servia refeições.

sorriso de boas-vindas do doutor paulo, de quebra e testemunha um desafeto do futebol de rua também a espera. entrou primeiro, dele tomou a vez. desabou na cadeira, guardanapo na mão, e o pedido abra a bôca.

pensou nela como nunca, a medida que a anestesia ia sendo preparada. tudo finalmente iria ficar azul, a boca limpa como quando se sai do dentista, como se os dentes tivessem nascido de novo. ela sentiria o gosto do seu amor em cada papila da lingua que também era contida nos beijos que ele mesmo sentia gosto de travo. por toda uma vida lhe diria seu amor de pertinho, mais de pertinho do que qualquer amor do mundo pois o dele era maior.

no meio dos pensamentos a seringa perigosamente perto da sua boca, lembra da agulha da seringa avolumando-se, o coração disparando e tudo escurecendo. de nada mais se lembrou, nem dela.

pelo menos poderia ter arrancado unzinho que fosse, ainda que nem fosse notado pelo hálito viciado no odor dos outros três. mas nada. doutor paulo levou o menino para casa, não sem antes, anunciar ao desafeto do futebol — desmaiou! deste tamanho com medo de dentista.

avisou-lhe de que nada mais poderia fazer. era perigoso qualquer procedimento com ele naquele estado. teria de procurar um dentisa que lhe aplicasse anestesia geral, hipnose, ou tratamento para curar aquele medo fóbico. mas como um menino pobre que namorava a menina mais bonita e rica do bairro poderia fazer isto ainda mais sem nenhum apoio dos pais?

o amor, até mesmo o maior do mundo, as vezes não resiste a uma simples agulha de injeção, ainda que seja de anestesia. aprendeu isto quando foi ele mesmo o chiclete cuspido na esquina.

Friday, December 01, 2006

welcome

finais de tarde costumam ser bucólicos. misturam-se climas de transição.
sóis de girassóis sobre as nossas cabeças fósforos. postes anseiam a pele da noite. plásticamente mar, reflete mistérios estelares. confundem-se os peixes e os homens. na parte lateral das nossas cabeças a lua se insinua. é um umbigo enfeitiçado de henna. mini-galaxia origem da vida dos nossos pensamentos às curvas da lua nos feitiça. o sol extenua-se. politicamente correto jã não acende o cigarro. mas arreia in sofa branco de praia. coisa masculina. precisa de tempo para recuperar energias. diz que vai tomar um duche. e dá um mergulho distraido no mar boiando até o amanhecer. quando acorda tem os olhos nipônicos. outras gueixas, outras queixas. da amante africana.

há quem veja o bico do seio da noite. mas tem gente que não vê. entalado no rush da epitácio pessoa. estico a mão. da ponta dos pés do seixas. em tal entardecer pleno as plantas respiram o ritual da transformação. o calor do dia deixou-lhes túmidas para receber o orvalho. o oxigênio já transpira gás carbônico. a fotosíntese excita os morcegos. meu olhar no horizonte vai sumindo atrás de mim mesmo. dezenas de anos atrás a hora do angelus madrasta que me impingia cicatrizes nos castigos do entra para tomar banho. deusas da noite tomam formas. já já, trombadinhas viram monstros. animais abandonados continuam abandonados. e aos sentimentos abandonado. que tipo animal me adotaria ?

saudades do meu ofício. pirilampos sobrevoam algumas imperfeições. juro que amanhã vou voltar a fazer ginástica. não. o dia não vai terminar ele mal começou. direi isto a noite pela manhã, que a noite não terminou. não a vida não terminou. direi isto a morte quando ela chegar ? disse isso a vida quanda ela chegou. a morte não terminou. e isto é só o começo.
welcome.

Saturday, November 25, 2006

sessenta menos sete

dois dedos de prosa e já se conheciam por uma eternidade.

sessenta anos depois, no leito de morte, ele pede seu suco preferido e em vez de mangaba ela serve graviola.

ele quase infarta de tanta xingação. 60 anos com esta puta e ela ainda não sabe os meus gostos de sabores? me diga se não é de morrer? e morreu, à seco.

semana depois, cerimônia de réquiem teve não. ela muito magoada deixou passar em branco. filho da puta mal agradecido, 60 anos aguentando estorvo a me xingar pelo menor esquecimento. se não fosse sabor, era o canudinho. se não fosse o canudinho era o adoçante. se acertava o açucar, era a quantidade.

vai reclamar do teu suco agora no inferno do meu esquecimento, velho babão.

e quer saber? de mangaba ou graviola, que diferença faz? é tudo fruta de caroço seu bosta ardido.

e mergulhou a mágoa num suco de pitanga, que sabia, tinha certeza, ele destestava ainda mais.

do fundo do caixão ele arrotou azedo.

Thursday, November 09, 2006

mentirinhas de portão

fim de tarde, e do namorico de calçada. ela garota dos seus treze anos não chorava mais do que ele quando devolveu-lhe a pequena caixa com retrato e trancelim que fingia-se escapulário.

todos lhe disseram que amores de adolescência logo passam, você vai ver, solidários das frases feitas, e de afazeres outros que não podiam ser trocados por sua companhia já incõmoda.

40 anos depois, sua caixa toráxica guarda palavras de consolo as quais se agarra té hoje: “os amores da adolescencia logo passam”, repete ele, sempre que passa em frente daquela casa enquanto muda de calçada

Thursday, November 02, 2006

de resto aos alcóolatras

já ultrapassara a barreira dos oitenta. uma semana no ar bebado de varar as madrugadas procurando pares na solidão. do abismo ao paraiso a distância pode ser feita de parágrafos, virgulas ou qualquer ar desses pulmões que tosse.

muito pálido eu nem já possuo mais ossos de sustentação no ofício. quimeras revistas, punhos metálicos, unhas de cobre e dente de zinco, sobrancelhas de neon, nicotina, narcóticos. baudelaire, rimbaud, verlaine, villon, ajoelhados aos pés da taça de oiro da loura gelada. as tiras de memória são velhas camisas esgarçadas com pedaços de 79, pedaços de muito antes, e de toda uma semana de 1980. eu sou mesmo um cachorrinho amestrado: aprendo todos os truques. até mesmo os de sobreviver com decência.

a flor da paraíba há quanto anos virá alimentando aqueles colibris abalroados, aquelas aves de pouso arquejante, toda aquela legião de camaleões descascados ? todos aqueles corpos já respiraram o ar venoso do amor? tenho certeza nas dúvidas sobre os noctívagos. eu sou um daquelas gentes.

sentei-me numa mesa de quina. não fosse a lucidez da minha paranóia, diria que ali sentei porque dali se observa melhor a confluência das esquinas com seus pares enamorados. apressava-se o relógio, com seu fálico ponteiro dos segundos, ejaculante meneio desolado, a saldar uma dívida antiga, em prazo por demais rápido para um passado deplorável.

uma banca de jornais: meus afagos para elas. entre todas aquelas manchetes sei, não lerei entre minhas orelhas nenhum parente vivo. o restante do tempo eu permaneço caricato, passageiro. circunstancialmente eu me coloco, eu me apresento, eu me refugio entre bares e jornais, afastando a recalcitrante forquilha do tempo, como se nela eu já não tivesse meu bilhete dependurado.

agora é tarde. folheio as mãos com jornais do sul. sei exatamente o que virá em cada centímetro comprado. ontem, estive em salvador. hoje,aqui. são paulo, porto alegre, amanhã .minas nunca mais.talvez eu encontre algum pedaço de mim, como uma gema preciosa em algum fundo de quintal do goiás velho, primeira reportagem de avião. voar é com os homens. sonhar é com os pássaros.

as mágoas encharcam. as bebidas as secam. bebo-me à seco, equlibrando-me entre guardanapos, saleiros e palitos fatigados e nauseados. batatas torturadas(fritas), queijos assados(retorcidos),coxinhas violentadas(estupro. manejo com habilidade minha paranóia e a remington baby, sonho menor de todo escritor chinfrim. telex e IBM 80 dissolveram-se na minha ideologia de axila versus pruridos multinacionais. sonhos esfarelados regados ao azeite espanhol(contrastes)gratinados à felatio(secura de mostarda)e condoído pela frieza das madrugadas(duras)eu já possuo nas mãos a inútil certeza do amanhã.

não deixa de ser uma paranóia folclórica. exercer o ofício na mesa de bar. corre-me nas veias algum sangue que não seja de executivo da informação ? paranóias e piadas à parte, reneguei o reinado da mediocridade por puro estoicismo.

cravo os olhos no espaço infinito de boemia do bambu. virgínius continua alimentando cães e gatos, alternando-lhes sopa e miolos. cabe a mim alimentar com restos os ratos da espécie. ex-professo, agredidos e misturados, sem escolha por inúteis apostas o bolor dos meus lábios.

o bar e uma vermelhidão de músculos e nervos dependurados baloiçando a favor do destino. já não bato em retirada por entre a literatura. a máquina de escrever a produzir o único barulho que não se encaixa na noite. tics tacs e toques são uma peidorrada alfenim, na bosta de querer detectar nessa primeira semana do meu ano numa exemplar anticrônica a venérea repetição.

nada.nada mudou.nem as vigílias pomposas(escandinavas)nem as donzelas coradas(demoradas) nem as prostitutas arrombadas(falidas)nem os homossexuais esfomeados(hemorro-idosos)nem os cães raivosos(contemplativos)nem as rosas murchas(adulteradas)nem os desejos humanos renascentes. a vida não vale a viagem, mara. só, observo este vício(a vida) monotonia que tarda-me em dizer good-bye e que faz-me indeciso entre o amor-café-na-cama e a angústia, lasciva caravela, que move escritores e seus objetos.

move-se a máquina e o homem, dificilmente separáveis, com um único destino: a crônica. entretanto machucado, evito as formigas e as farpas dessa sobremesa, se me lembro, seguro pelo braço, do valor da conta de estar vivo e escrever.

talvez noutra passagem exista a possibilidade de me deter com algum acrílico nos cílios. hoje, só percebo que esta mesa é redonda, que todas as mesas são redondas, e que, nós também, escritores e objetos, esta noite estivemos caminhando em círculos.

publicado na página especial, do segundo caderno de o norte, em 09 de janeiro de 1980.(uma quarta-feira abafada apesar da proximidade da lagoa no centro da segunda cidade mais arborizada do mundo(sic)) e excepcionalmente publicado aqui.

Saturday, October 28, 2006

zé das catacumbas

confidenciou-me, havia matado o pai. mas nem bem morto assim. vez em quando, ele surgia. e aí derrota de tudo. subiam-lhe além dos suores, a pressão, e com ela, o nervosismo, que ele sabia bem de quem herdado. esculhambava tudo, agia como se não fosse mais um. pior, como se não fosse ele mesmo. reconhecia-se irreconhecível. tudo era pressão do morto, que disse ele havia matado.

dentro de todas as coisas que detestava desta morte não conseguida, a ansiedade era o mal maior que herdara dessa morte mal matada. levara quase uma vida toda para descobrir isso. sim, era emocionalmente tenso, o que dificultava-lhe o equilibrio, nesta corda bamba de um duelo travado entre o consciente e o insconsciente, pior, que não era dele. em conflito, a maioria de suas decisões eram afetadas por isso. pela ansiedade, que tanto-lhe lhe movia às pressas benéficas, mas que também provocava a perda de foco, dir-se-ia tecnicamente. ia viajar? noite mal dormida já de ante-véspera. e sonhos de chegada sempre cortados pela angústia da conferência dos mínimos detalhes. ônibus as quatro? as duas já na rodoviária. aquilo não era dele, era do morto, com suas insistências de manter os horários de vida dos outros pela hora da morte.

de suores frios assim tomado, via-se em discussões com seus oponentes reais tornados imaginários porque multiplicados em clones, cada um face adversa das muitas do morto mal matado. no que concluira que os mortos-vivos tem mais faces do que os vivos-mortos, estes que agora gostariam de lhe comer vivo enfrentados daquela maneira como se fossem sobrenaturais. afinal, quem gosta de ser tratado como morto?

pior ainda quando tentava prever tudo? no que sempre falharia, claro. de que adiantava imaginar que não fosse pego de surpresa, anteciparia-se as previsões de fracasso do morto, o que, em suma, tratava-se de evitar não tomar esporro do morto como tantas vezes acontecera em vida? nunca levaria vantagem sobre o morto e os vivos, que não raro transbordavam à realidade de maus súbitos, passando-lhe a perna, ressucitando mais uma vez o morto mal matado em máscaras do escárnio da opressão. então, gerava-se daí a fúria desabrida que no fundo, sabia agora, não era sua. um desejo desproporcional de negar compulsivamente o mando da autoridade, de um abaixo a ditadura do papel higiênico que fosse. aquela sua inconoclastia infantil do hay gobierno soy contra, acaletava isto sim afundanços nos negócios onde também ia perdendo sua vida pela morte mal matada do outro.

passaria de um fantasma? se cada passo do vivo, governado pelo morto. que inferno viver assim. carregava o peso do castigo e da ameaça. insuportável, não seria melhor morrer ele mesmo? duvidara a pensar algumas vezes. ciente de que estava perdendo a batalha? seria esta a questão crucial. o dia toda convivendo com isto, rebelando-se contra ele mais no fundo impulsionado por ele, sempre ele, o morto mal matado, do qual ele também um reencarnado?

por entre as catacacumbas dos vivos zé esgueirava-se neste dilema dos mortos tornado vivo por ele mesmo cada vez que pegava-se matando o pai mais uma vez mal matado.

matando-se mataria definitivamente o pai? ou quiçá seria muito mais vivo, deixá-lo viver, conquanto que fosse bem longe dali, em terras distantes não mais demarcadas pela lembrança da necessidade do esquecimento a rebelião?

zé das catacumbas perambula dia apos dia em cada um dos muitos de nós que imagina-se muito vivo por ter matado pra além de morte morrida o morto do pai que continua imortal por isso mesmo.

onde a falta de sutileza dessa morte mal matada? no rejunto das catacumbas por onde entram e saem as baratas da memória ?