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Saturday, October 07, 2006

bodas d´ouro

varanda de casa simples. como simples são as coisas postas felizes. de já quase idosos um fogo daqueles que não alardeia chamas em alta mas que queima lenta e aconchegantemente dos troncos os gravetos na lareira dos corpos que ainda lhe são ardentes.

mãos dadas, veias sobre veias, ela ainda mais carinhosa, faz-lhe pergunta que julga impossível resposta outra que não seja tamanha felicidade.

— diz-me meu amor, haveria alguma coisa que te pudesse fazer em mim, de tí o teu amor escravo mais livre e feliz ?
e ele, num sexo-sentido exposto em travo de mágoa — comer-te a bunda! todos os dias sem fazeres estes aís que me machucas, aís que assim mais não quero, como se uma vez na vida fossem todas as vidas numa vez.

toma-lhe a cara vermelha de um ardor nunca sentido antes. a bofetada fora tão inesperada quanto a resposta não aguardada.

e assim não sendo, continuaram a viver infelizes até que a morte os separasse.

Friday, October 06, 2006

anybody there?

toc! toc! toc! ô de casa!!!

na porta de pau ôco, morada de há muito abandonada, colônia de cupins lhe partiram o coração, as batidas foram morrendo sem resposta.

prenúncio do que havia lá dentro de vazio? não se sabe. nem alex sabe. quem sabe o que se passa lá dentro do que quer que seja? nem o dentro do dentro sabe. quanto mais o de fora. mesmo que nem sempre esteja por fora.

estes momentos de segundos sempre parecem horas até que houvesse resposta, se resposta houvesse. nada. silêncio em ecos, de nada adiantaria bater novamente.

rente a testa, esboço do que pareceria ser um bilhete, fui ali e já, presumiria-se, volto. mas como voltar se ele nem sequer tinha ido? se ele nem sequer tinha saído. se ele nem sequer tinha sido?

mão batida na porta lembrava sinal do black power. havia musgo na porta. se havia musgo não havia solidão. pois havia ali um sinal de vida, ainda que esverdeada. uma punheta de vida, vida punheta mais vida, quiçá um punheta da imaginação. mas isso foi antes do silêncio substituir a solidão.

casa de poente levava com o sol todas as tardes, fazendo quase ferver pote d´água servilmente colocado para matar a sede de companhia do inacompanhável. fazia isso várias vezes ao dia, únicos momentos em que era visto em longas conversas com os gatos da rua. diálogos de ronronados, miados que ele respondia numa língua ora imaginária, ora bem real. entendia e fazia-se entender, julgava sem pressupor outras traduções. mas tinha um princípio:só discutia com os gatos as coisas boas da vida. nada de mazelas ou chorumelas. desgraças nem pensar. ainda que muitas vezes elas estivessem à vista nas sete vidas multiplicadas que os gatos lhe traziam. com gatos não discutia nem filosofia barata. amenidades o tema da conversa de sempre. era o que precisava para dissipar-lhe todas as gasturas das suas incompatibilidades com o restante da vida que se puia a cada dia que lhe morria um bichano.

e punha-lhe nomes santos a todos. de acordo com a sua não religião. broken, era o preto e branco tigrado. rabo quebrado desde pequenininho. filho do caôlho. gato surrado. crecas à beça. feridas crõnicas em ouvidos abertos para sempre mas senhor da rua e de todas as noites até a do seu sumiço.

princesinha, a sua preferida de rabo flocado e traço angorá no preto e branco de gata de rua. aquela que cantava minuetos a sua passagem e que, breve passagem, amanhecera impávida a poucos metros de sua casa. contaria um gatil se fosse descrever todos os miados que lhe emocionavam sensivelmente. batmanzinho que mudara de rua, aquele que sempre estava de rabo em pé ao seu chamado. rabão, que outro nome dera mas esquecera e ficou este. cara escarrada e esculpida da face e dos trejeitos de princesinha que a substituira e de igual modo mui breve vida. e havia margarida. a mãe de todas. oito partos se contou direito. a gata que fazia correr todos os cachorros de carreteiros. fosse de dia, fosse de madrugada, e que agora debilitada, corria ao menor ruído, sinais de que andava sétima vida e já com ora marcada. ainda a irmã de princesinha. arisca, que nunca por nome teve, mas nome dado por agora. e que assim era, menos no dia do parto em que lhe deixou massagear a barriga de filhotes que só conheceria um, também vita breve. foi-se como todas as coisas vão-se com o tempo dimuido nesses tempos que anunciam que a ampulheta não pode mais ser virada.

toc! toc! toc!, sequer um miado. se for esperto alex já sabe o que isto denuncia.

o pote de há muito vazio, pequeno detalhe passado em branco, salvo quando o pisou ao voltar-se para ir embora.

do pote ressecado a história trincou-o na hora.

Thursday, October 05, 2006

dura lex sed alex

por aqui um tal que faz-me comentários. meio desconfiado de que é tipo semi-sádico. gozador. aparenta propósitos de incentivar-me a cometer mais crimes. mas sabe-se lá que mente tem de propósitos. é um gente de carne e osso. e isso é tão suspeito quanto também o sou. mesmo quando não sendo.

corruptor de maiores. passa cuspe em sua labia sim. vai tentando convencer-me de que é possível um mero escritor vez em quando
piar em mim.

quase diariamente me visita. apertou o passo. desde a semana passada, todos os dias. hábito que se continua, vira víço. inominável. qualquer coisa de quase baitôlagem, literária.
as vezes, confesso-lhe, até tenho vontade de dizer-lhe xõ! passa fora! sai! vicio. mas já estou lhe começando quase pelo fim nesta breve história de escritas. e a vaidade alimentada o vai apreciando, sem autógrafos. apesar de ter lhe dado confiança algumas vezes.

por isso todas as manhãs leio seus comentários. e escuto suas batidas à porta, chamando-me para mais uma incerta da lida.

da minha casa da escrita, frestas de porta e janela, mui recém revelada. vem da cumeeira sentimentos ruminantes. sem estuque, folhas secas estaladiças sobrepôem-se a meus passos. de memória levanto da cadeira de balanço bem no arco dos seus guinchos. tempos duros do meu avõ. daquela que marcam costas, de fios que sempre partem quando a coisa aperta. abro portinhola e não vejo nada do que ele diz que lê. nem na rua, nem dentro de casa. tudo instinto de um vazio só. sobra a vista de quintal pra ribanceira.

então volto pra dentro do balanço e produzo mais folhas e folhas de papel em branco sugadas pela luz da quase fantamasgoria de volta à cumeeira. quase compondo um tipo, meio de mágico meio de trágico, lá pelas tantas da madrugada, deixam de ser ecrã e tornam-se derramadas da mesa ao chão, no que logo-logo tem serventia na brincadeira de bolinhas rarefeitas da literatura em círculos produzida, e que jogo a cachorros e gata, formas de vida, que ela, a escrita, conhece em mordidas.

cachorros, gata de dentro, e gatos de fora, que são três, contemplados com intevalos esparsos, porém metódicos, das benditas para eles pausa na escrita. sabem que esta é a única utilidade deste exercício diário de nem sequer semestre. estreitar-mo-nos juntos por mais tempo possível. apesar de já tê-lo cronometrado para a extinção no grande livro de todas as escritas. onde todos os garranchos acabam em branco no correr do tempo. folhas mortas, por mais garatujos que as façam conter.

e assim, amargo-doce, se lhe desdigo, escrever no entanto, pra quê? se não conseguimos dar vida para os únicos personagens que realmente importam? e que realmente nos fazem companhia, até mesmo quando não merecemos? produzo-lhes apenas inútil jogo de palavras, que não conseguirá prolongar-lhes nada mais que uma cusparada certeira da anti-vida, que adianto-lhes já não anda nada divertida para nenhum de nós.

então, quando o tal alex amanhã bater-me a porta, vou soltar-lhe os cachorros e gatos em cima. quero ver como ele se sai, como se porta nesta caca de vida escriturada em que acabou aparafusado nas anotações dos meus guardanapos.

fundilhos à mostra, vou fazer-lhe apupado, acuado, meninada a gritar pega-pega, vozes de pés-de-cabra a lhe praguejar. anciâs a brandir-lhe o cacete a torto e a direito com pombos a lhe defecar. e até burros sem rabo a lhe coicear. escárnio da queda, com sorte não lhe cai pedaço arranhado. e, principalmente, quando o capenga, vira-lata tinhoso imaginário, construido a partir de romário, o pequeno cão de perna dura, marrento como ele só, que assim como apareceu um dia sumiu, como tudo há de ser na vida seja escrita ou não, em vez de dentar-lhe a bunda, mijar-lhe o pé rapado de admirador.

aí, talvez ache que realmente estou me tornando algo mais que um quatro paredes de escritas. e, se assim for, levo a cadeira de balanço para a calçada, e aposento de vez o compurscador.

(visto assim também, talvez o alex não passe nunca mais por aqui. embora não se vestisse na pele de bajulador. mas, ainda se assim, se não fosse ele, o que seria de mim agora, escritor?)